sexta-feira, 2 de maio de 2008

Fora de jogo...


Se ainda não sei o que quero,
se ainda ando a procurar,
é como perder 5 a 0
sem sequer saber jogar.
O árbitro só existe
porque me pus nesse lugar,
o jogo apenas consiste
na baliza para guardar.
Não sei jogar “ao ataque”,
talvez saiba defender,
eu nunca serei um “craque”,
porque vou sempre perder.
Não sei o que vai cá dentro,
quando oiço o apito,
vejo só a bola ao centro,
a seguir: um grande grito.
O grito é o desespero
de nunca saber “chutar”,
é passar o jogo inteiro
à espera de este acabar.
Não sou jogador, sou um tolo
que não pára de tremer,
pois vai haver mais um golo
sem eu saber defender.
Andar para aqui a jogar
por amor à camisola,
não é mais do que esperar
que entre mais uma bola.
Considero eu francamente:
não quero perder, nem ganhar!
Já seria suficiente,
apenas saber empatar.

M. A. 1999

Era uma vez várias vezes (8)

Era uma vez um saco de plástico. Os seus traços de caracterização física reduziam-se a ser possuidor de duas asas e uma grande boca. Psicologicamente, era mais complexo visto que tão depressa abria a boca num grande sorriso, como se sentia completamente amarfanhado por dentro.
Tinha sido feito em série e, logo desde pequeno, fora arrancado do convívio dos irmãos. Puseram-no a trabalhar. Trabalho infantil como aquele que existe em todo o mundo e se vê na televisão. Pois, para ele, era uma realidade…Passou a sua infância de curta duração no armazém de um supermercado, até ser adoptado por um casal que lhe encheu logo a barriga de massa, arroz, carne, peixe e outras coisas de que ele não gostava tanto (como papel higiénico, por exemplo!).
Quando chegou a casa deles, o que ele achou mais estranho foi eles dobrarem-no de tal forma que o reduziram a um minúsculo triângulo. Assim permaneceu uns tempos. Houve um dia que, depois de ouvir pessoas a conversar, pegaram nele e, abrindo-o (grande suspiro de alívio, pois já estava cheio de cólicas de estar naquela posição), encheram-no de qualquer coisa esquisita que o sujou todo. Apercebeu-se que nem saiu do prédio onde estivera com o casal, entrou na cave pela mão de uma senhora que tinha um nariz um bocado vermelho e tratava toda a gente lá de casa por fofinho, quer fosse o filho, quer o marido, ou mesmo o cão. A primeira coisa que fez, foi pô--lo de pernas para o ar e retirar-lhe todo o conteúdo, a seguir levou-o para um tanque que havia no quintal, esfregou-o com sabão e passou-lhe água abundante pelo corpo. O pior foi o que se seguiu, isso mesmo, pendurou-o na corda da roupa com uma mola que lhe apertava os fundilhos com toda a força. Muito infeliz, nem reparou que não estava sozinho. Ouviu música, olhou para o lado e viu um saco sóbrio, preto e branco, da Valentim de Carvalho. Tocava, lindamente, música de todos os géneros, foi uma alegria. Ao lado do saco músico, estava um, cor de laranja, muito alegre, da Bertrand, a partir daí, histórias nunca faltaram.
Passados uns dias de agradável convivência, juntou-se-lhes um colorido saco da Sloggi, isso é que foi um desatino! Era ver qual deles mais agradava a tão feminina criatura…
Apesar da música de um e das histórias do outro, o que fez mexer o coraçãozinho da Sloggi foi o nosso saco de supermercado, talvez pela sua simplicidade, talvez pelo seu distintivo azul e vermelho (as mulheres adoooooram fardas!). O que é certo é que ambos se perderam de amores, de tal forma que combinaram fugir juntos. Planearam tudo: algum dia a senhora havia de os tirar da corda… se tivessem sorte, haveria um dia de vento…
A sorte esteve do lado deles, a senhora veio…o vento chegou…
Ataram bem as asas um ao outro e…deixaram-se levar…
O resto da vida, levaram-na juntos (o nó era muito apertado!), é certo que tinham sido apanhados por um homem que cheirava um bocado mal e que não devia ser muito bom da cabeça, pois andava sempre na rua, dormindo debaixo de uns cartões, mas que mais podiam eles desejar? Estavam juntos, estavam felizes..
Nem todos têm esta sorte, os amigos, o Bertrand e o Valentim de Carvalho, foram, a abarrotar de lixo, para um contentor, à noite puxaram-nos desumanamente para o que parecia um carro blindado, por entre um ruído medonho, desapareceram dentro dele, sem deixar rasto. Nunca mais se ouviu falar deles!
Os nossos amigos apaixonados, ainda hoje os vi, lá vão eles de mãos eternamente dadas, sempre a acompanhar o homem que lhes deu a liberdade.


M.A. 1997

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Enerve-se, pela sua saúde!


Rohan Candappa, O pequeno livro do stress

Conselhos: faça dieta e exercício físico!


Dieta em força:
Coma menos comida fresca.
Coma mais coisas com conservantes.
Os conservantes têm esse nome
porque o ajudam a viver mais tempo.

Exercício físico:
Sempre que tiver oportunidade,
agite garrafas de bebidas gasosas.
Depois, deixe-as para que outra pessoa as abra.

Rohan Candappa, O Pequeno livro do stress

Les insomnies


A voir tant de gens qui dorment et s'endorment à la nuit,
Je finirai, c'est fatal, par pouvoir m'endormir aussi.
A voir tant d'yeux qui se ferment, couchés dans leur lit,
Je finirai par comprendre qu'il faut que je m'endorme aussi.

J'en ai connu des grands, des beaux, des bien bâtis, des gentils
Qui venaient pour me bercer et combattre mes insomnies
Mais au matin, je les retrouvais, endormis dans mon lit
Pendant que je veillais seule, en combattant mes insomnies.
(...)

Paroles et Musique: Barbara 1978

"Si la photo est bonne..."


Não é a Streisand, não é a Guimarães, não é a Elias...
Simplesmente, a Barbara, la dame du soleil noir...
Não é permitido passar pela vida sem a conhecer!

M.A. 2008

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A noiva que nunca o foi.



-É uma pena, coitadita, tão boa rapariga!
-Pois era, sempre tão trabalhadeira, não fazia mal a uma mosca...
-Não se via aquela alma fazer o que quer que fosse de mal, era do trabalho para casa e da casa para o trabalho, não era nenhuma desavergonhada como as que p’r’aí há!
-O que dava dó, era vê-la sempre com aquela tristeza, aquela mania que ninguém a queria...
Se um dia não casasse, morria. E, coitada, ela nem p’ra tia ficava, pois se nem irmãos tinha...
-Eu bem le dizia: ó filha, p’ra que queres um homem? Eles são todos iguais, só querem é beber e gastar o dinheiro com outras mulheres, não vês a minha vida, que inferno! Só quando o meu António se foi (que Deus o tenha, apesar de tudo!) é que tive um bocado de descanso, ó menos agora sei que o que recebo da pensão é só p’ra mim...
-Pois, mas nesse assunto ela não ouvia ninguém, e então viu o maldito do anúncio, pôs-se a cismar nele, e toca de responder, mal sabia ela o que ia acontecer, pobrezita!
-Mas, por acaso, naquele dia, até dava gosto vê-la – tão alegre, parecia uma miúda, nem parecia que era uma mulher de trinta anos...
-Eu ainda le disse: olha que há p’r’aí uns porcalhões que metem anúncios no jornal e querem é abusar d’alguma rapariguita que les apareça...e olha que aquilo da ”paixão escaldante e carnal” não me cheirou nada bem! Claro, com o entusiasmo com que estava, nem ligou meia, aperaltou-
-se toda, até foi à Clotilde dar um jeito ao cabelo e aí vai ela que até tinha rodas nos pés...
-A última vez que a vi, estava à janela, parecia que se estava a despedir de alguma coisa. Mal sabia ela, coitada!
-É verdade, desapareceu, e só ao fim de uma semana, apareceu o que restava dela, nem me quero lembrar!
-Tarado, se isto é gente, há homens que são piores que os bichos, aproveitar-se dela e depois deixá-la p’r’áli naquele estado...
-Bandido, esse nem devia ser preso, eu é que devia tratar dele, cortava-lhos rente e a seguir mandava-o p’ró inferno p’ra pagar p’lo que fez...
-Quanto a ela, pobrezita, já não há nada a fazer, que Deus a tenha...
-Ámen!

M.A. 1999

terça-feira, 29 de abril de 2008

Quando Maomé não vai à montanha...


Igreja de Nossa Senhora da Candelária
(a igreja da minha freguesia, em Bissau).


Um "emissário" trouxe até mim, em 1985,
notícias da terra.onde nasci.

I had a house in Africa...

M.A. 2008

Vá lá a gente saber porquê...


Ir desta para melhor, mas bem acompanhado...

Cá vai mais uma oraçãozita
(brincalhona e CHEIA de conteúdo!)




Quatro cantos tem a casa,
quatro tochas estão a arder,
quatro anjos me acompanham,
se eu esta noite morrer.
M.A. 2008

Quando as estações se misturam...


Dito por João Villaret, de poeta popular

Era uma vez várias vezes (7)

Havia um alhinho que tinha grande insucesso escolar. Este insucesso vinha--lhe da falta de memória que o atacava constantemente. De tal modo isto era frequente que, para mal dos seus pecados, ( e os alhos também têm pecados…) na escola, ele era conhecido pelo “Cabeça de alho chocho”. Isto era muito desagradável! Não é que os seus colegas fossem grandes cabeças, mas havia um que, por ser tão inteligente, tinha a alcunha de “Cabeça de melão”. Estas falhas de memória traduziam-se geralmente em pequenos esquecimentos, não levava folhas para escrever e tinha que pedir sempre a uma colega, a menina couve, que lhe emprestasse algumas, mas como ela já estava a ficar desfolhada, deixou-se disso. Falando de desfolhada, a dita menina não podia com a Simone de Oliveira, porque ela, que era frequentemente desfolhada, não percebia o que tinha isso a ver com quem faz um filho, fá-lo por gosto…; achava isto uma pouca vergonha!
Havia, na sua classe, um menino de ideias muito estreitas, o “Cabeça de pepino”, que era muito esquisito, andava sempre todo torcido, isto tudo porque o professor (um nabo!) lhe dissera que de pequenino é que se devia fazer isso.
Outra coisa que incomodava o nosso herói era ele chegar, logo de manhãzinha, à sala de aula e começar tudo a gritar “Grande pivete, vai-te embora, ó mal-cheiroso!”. Era de desesperar, que culpa tinha ele de ter aquele seu característico odor?
A única pessoa que gostava verdadeiramente dele era a professora de Hortofloricultura. Era já entradota, tinha tido um processo em tribunal, por exibicionismo com menores, porque tinha o vício de se descascar em frente de toda a gente. Lá se safou do processo visto que os jurados, por sorte, eram quase todos voyeurs, e ela, ficando picada, com o seu dom especial, pô-los a chorar, num abrir e fechar de olhos.
Costumava combinar, com o meninalhinho, aulas suplementares. Era um inferno, ela nunca chegava a horas (era uma cebola, claro!). O miúdo não achava grande graça, pois a professora passava a vida a dar-lhe trincadelas, isto só porque o médico lhe dissera que o alho fazia bem ao reumático.
Esta vida não interessava a ninguém, aguentou anos seguidos, mas, apesar de todas as contrariedades, como era cabeçudo, lá tirou o seu curso: dentista. O seu consultório estava cheio de dentes de alho, era um profissional de sucesso.
Ao atingir o pico da carreira, resolveu escrever um livro com a história da sua vida e a chave do seu sucesso: carradas de desodorizante e várias caixas de Sargenor !
E assim acabou a história do menino “Cabeça de alho chocho” que se transformou num adulto ESPERTO QUE NEM UM ALHO!

M.A. 1997

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Rogando "p'rà troca"...

Embora, hoje, eu seja completamente ateu,
não lamento o conhecimento do texto literário
que é a Bíblia. Também algumas orações me
ficaram na memória, talvez pelos jogos de
palavras, a nível fónico, semântico, sintáctico...
Cá vai um exemplo:


Ó almas benditas,
eu vos peço e vos rogo

pela vida que tivestes,
pela morte que sentistes

pelas penas em que estais,
pela glória que esperais,
quem vós fosteis, somos nós,
quem vois sois,
havemos de nós ser.
Rogai a Deus por nós
que nós rogamos a Deus por vós.

M.A. 2008

domingo, 27 de abril de 2008

A vida temperada numa mesa de cozinha.


Laura Esquível, Como água para chocolate

Qualquer receita é uma espécie de livro de instruções para se fazer um cozinhado...
O mesmo não se poderá passar com a vida?
Uma cozinha pode ser o centro de decisões da vida de uma família...
Uma mesa de cozinha pode ser um pretexto, “em volta do qual não apenas se juntam os comensais, mas também se cozem e temperam amores e desamores, risos e prantos, e se celebra o triunfo da alegria e da vida sobre a tristeza e a morte.”
Na casa mexicana que é descrita, a linha feminina conduz os destinos da família...
Um rapaz decide casar com a irmã mais velha da sua amada, para poder estar por perto...
Uma mulher da família, contagiada pelo sentimento impregnado num molho, e exalando em toda a sua plenitude o odor das rosas, atrai para si um capitão revolucionário e foge com ele...
Este livro é um retrato do México rural dos princípios do século passado e tece um hino inesquecível ao prazer dos sentidos e à liberdade criativa da mulher.
Todos os mistérios e diferentes sabores são desvendados quando se mergulha neste romance...
Senta-te comigo a esta mesa...
Bom proveito!


M.A. 2008

"O de cima" e "os de baixo".


Baixei os olhos, lá em baixo tudo era baixo, vil. Vi que não me agradava o que via. E, de cima, percebi que ninguém percebia que em cima havia alguém. Os de baixo (e tão em baixo!), não percebendo o que se passava em cima, acusavam, em tom muito baixo (o que, ainda por cima, dificultava ao de cima perceber o que queriam os de baixo) a ausência de um em cima. Deste modo, eu, de cima, vou-me com frequência abaixo porque os de baixo me tiram sempre de cima.
Eu me perdoe!


M.A. 2000

...you're not welcome anymore!



M.A. 2008

LARMOIR


Meuble servant à ranger les pleures.

Alain Finkielkraut, Petit fictionnaire illustré

...à chacun son Paradis...



Tes dents sont des perles,
ta bouche, un rubis,
ton chant est un merle
qui chante la vie.

Tes yeux m’enlèvent
jusqu’à l’infini....
Quand tu m’observes,
c’est là que je suis!

Et te voir content,
c’est le paradis :
moi, je suis Adam,
toi, tu l’ es aussi!

Pour que tout ça puisse
terminer très bien,
il faut que ça «glisse»,
sans voir le serpent.

Et bien que, les deux,
des anges nous sommes,
il est dangereux
de manger la pomme!


Adaptado de um poema de M.A. de 1999
M.A. 2008

Resposta de R.R.


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
(...)
Desenlacemos as mãos, porque nao vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
(...)
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
(...)

Ricardo Reis

Pergunta de M.A.

Desejar a permanência. Viver nos nossos sonhos. Obsessão do pensamento. Eternas vigílias.
Um abraço, um beijo, um toque de mãos. Simplesmente um olhar. Sentir-se mil vezes o que nunca se sentiu. Beber as palavras: ilusão? Mágoa! Querer ouvir o que não é dito. Dizer o que não se pode ouvir. Inventar razões, tomar decisões, adiar o impossível. Tudo isto porquê?
O corpo, a alma, o ser? Tudo e...nada!

Pouco – desespero. Muito – perigo.
E o tal abraço, e o beijo, e o toque de mãos,
e o olhar, e as palavras?
E quando, e como, e para quê?
E depois...?
E mais...?
O que fazer de quem se gosta?

M.A. 1999

Era uma vez várias vezes (6)

Era uma vez muitas vezes, ou melhor, era uma vez constantemente. Tantas vezes era uma vez que perdia a Graça (lá andava a mãe à procura dela, coitada!). A vez, ou era uma, ou não tinha qualquer interesse!
O facto é que era uma vez, era duas, era três e por aí fora… Dessa vez, por acaso, foi tanta vez que nunca se vira acontecer um número tão infindo de vezes. Caso raro. Portanto, voltou a ter interesse, voltou a achar-se Graça (que contente que a mãe ficou!) e pôde
dizer- -se, com toda a propriedade: era uma vez muitas vezes

M.A. 1998