sexta-feira, 2 de maio de 2008

Era uma vez várias vezes (8)

Era uma vez um saco de plástico. Os seus traços de caracterização física reduziam-se a ser possuidor de duas asas e uma grande boca. Psicologicamente, era mais complexo visto que tão depressa abria a boca num grande sorriso, como se sentia completamente amarfanhado por dentro.
Tinha sido feito em série e, logo desde pequeno, fora arrancado do convívio dos irmãos. Puseram-no a trabalhar. Trabalho infantil como aquele que existe em todo o mundo e se vê na televisão. Pois, para ele, era uma realidade…Passou a sua infância de curta duração no armazém de um supermercado, até ser adoptado por um casal que lhe encheu logo a barriga de massa, arroz, carne, peixe e outras coisas de que ele não gostava tanto (como papel higiénico, por exemplo!).
Quando chegou a casa deles, o que ele achou mais estranho foi eles dobrarem-no de tal forma que o reduziram a um minúsculo triângulo. Assim permaneceu uns tempos. Houve um dia que, depois de ouvir pessoas a conversar, pegaram nele e, abrindo-o (grande suspiro de alívio, pois já estava cheio de cólicas de estar naquela posição), encheram-no de qualquer coisa esquisita que o sujou todo. Apercebeu-se que nem saiu do prédio onde estivera com o casal, entrou na cave pela mão de uma senhora que tinha um nariz um bocado vermelho e tratava toda a gente lá de casa por fofinho, quer fosse o filho, quer o marido, ou mesmo o cão. A primeira coisa que fez, foi pô--lo de pernas para o ar e retirar-lhe todo o conteúdo, a seguir levou-o para um tanque que havia no quintal, esfregou-o com sabão e passou-lhe água abundante pelo corpo. O pior foi o que se seguiu, isso mesmo, pendurou-o na corda da roupa com uma mola que lhe apertava os fundilhos com toda a força. Muito infeliz, nem reparou que não estava sozinho. Ouviu música, olhou para o lado e viu um saco sóbrio, preto e branco, da Valentim de Carvalho. Tocava, lindamente, música de todos os géneros, foi uma alegria. Ao lado do saco músico, estava um, cor de laranja, muito alegre, da Bertrand, a partir daí, histórias nunca faltaram.
Passados uns dias de agradável convivência, juntou-se-lhes um colorido saco da Sloggi, isso é que foi um desatino! Era ver qual deles mais agradava a tão feminina criatura…
Apesar da música de um e das histórias do outro, o que fez mexer o coraçãozinho da Sloggi foi o nosso saco de supermercado, talvez pela sua simplicidade, talvez pelo seu distintivo azul e vermelho (as mulheres adoooooram fardas!). O que é certo é que ambos se perderam de amores, de tal forma que combinaram fugir juntos. Planearam tudo: algum dia a senhora havia de os tirar da corda… se tivessem sorte, haveria um dia de vento…
A sorte esteve do lado deles, a senhora veio…o vento chegou…
Ataram bem as asas um ao outro e…deixaram-se levar…
O resto da vida, levaram-na juntos (o nó era muito apertado!), é certo que tinham sido apanhados por um homem que cheirava um bocado mal e que não devia ser muito bom da cabeça, pois andava sempre na rua, dormindo debaixo de uns cartões, mas que mais podiam eles desejar? Estavam juntos, estavam felizes..
Nem todos têm esta sorte, os amigos, o Bertrand e o Valentim de Carvalho, foram, a abarrotar de lixo, para um contentor, à noite puxaram-nos desumanamente para o que parecia um carro blindado, por entre um ruído medonho, desapareceram dentro dele, sem deixar rasto. Nunca mais se ouviu falar deles!
Os nossos amigos apaixonados, ainda hoje os vi, lá vão eles de mãos eternamente dadas, sempre a acompanhar o homem que lhes deu a liberdade.


M.A. 1997

1 comentário:

Anónimo disse...

Para tudo se quer sorte até para uns singelos sacos plásticos "Era uma vez várias vezes"Leva-nos ao sonho à saudade à recordaçao até à meditação mas pra nos sentirmos bem. ObrigadaLena