sábado, 26 de julho de 2008

Mataiotes, mataioteton, ta panta mataiotes*



Diógenes, o cão

Diógenes era um filósofo Grego cínico que viveu em Atenas e Corinto. Desprezava a vida de luxo e conforto dessas cidades e optou por viver na rua como um cão. Quando lhe perguntavam por que razão lhe chamavam O Cão, ele respondia:
- Costumo fazer festa a quem me dá alguma coisa, rosnar a quem me rejeita e cravar os dentes nos crápulas.

* Vanitas, vanitatem, omni vanitatem
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O critério mais forte...


"As obras dividem-se em duas categorias:
as que me agradam e aquelas que não me agradam.
Não conheço nenhum outro critério."


Anton Tchekov

Era uma vez várias vezes (18)

Levantou-se da cama que lhe sobrava, olhando para o dia como uma tarefa difícil de cumprir. Encarou o ritual da higiene pessoal com um heroísmo quase épico.
No fim, enrolou o seu longo cabelo branco (o seu orgulho!) num meticuloso rolo junto à nuca. Primeira missão cumprida (e, para ela, tão comprida!).
Armada de mil coragens, pegou na sua companheira, uma bengala de cabo de casquinha e, anónima, juntou-se à multidão de um bairro agitado na cegueira do quotidiano. Comprou o indispensável, era impensável comprar mais alguma coisa, o saco era tão pesado!
Chegada ao seu mundo, suspirou de alívio e de cansaço, tirou os sapatos (o Céu, por alguns segundos!) e, depois de recuperar de tão penosa viagem, comeu o habitual pequeníssimo almoço: uma torrada, uma chávena de chá. Não o fez de qualquer maneira, havia que preservar um mínimo de ritualidade! Estendeu, num tabuleiro, o pano bordado a recordações; rigorosamente, instalou a chávena e o pratinho da torrada. Levou tudo para a sala. Aí, sentou-se a uma mesa redonda e pequenina (a cara da dona!) e olhou à sua volta para o amontoado de memórias de um passado já tão distante…
Foi passando os olhos pelas velhas paredes forradas a papel, pelas pequenas mesas de canto, repletas de molduras e viu o que nunca tinha visto: o orgulho nos longos bigodes do pai, o rigor honesto nos bandós do cabelo da mãe, a ternura nos olhos de um marido que cedo a abandonara, o retrato de um filho que nunca tivera…
A cadeira de baloiço embalava o vazio de um passado agora irreal.
A sua memória auxiliava-a porque, felizmente, já não era como dantes… Assim, conseguia deslembrar uma vida plena de actividade e amor, poupar-se ao reviver o irrecuperável, evitar comparações com o nada do presente.
Riu de um miúdo (não se lembrava quem era!) que abraçava um cão, das irmãs, todas vestidas de igual, com grandes laços na cabeça, de um homem com um fato de banho às riscas e com alças… Era a vida semivivida a preto e branco e, definitivamente, arrumada em molduras.
O dia, passou-o convivendo com as únicas pessoas conhecidas: as de um ecrã. Estas, a cores, matizavam o cinzento da sua existência, o vazio do seu presente. No entanto, obrigavam-na a perceber (para logo esquecer) que havia um mundo em que ela era, agora, uma simples espectadora…
A noite aproximou-se, sentiu uma sensação estranha, uma felicidade feita de despreocupação e abandono. Não desejou, como de costume, o aconchego dos lençóis. Levantou-se, arrastou-se para a cadeira de baloiço, sorriu, fechou as pálpebras cansadas e, baloiçando, desistiu de viver…


M.A. 2000

Amigos



Escolha amigos que não lhe agradam.
Rohan Candappa, O pequeno livro do stress