sábado, 31 de maio de 2008

Evolução II - Ramificando plantificações...


Entanto de Pedro Rocha em Rosa Pereira dos Ramos volvi... Alongaram-se-me as saliências, amaciaram-se as consistências, esverdearam-se as escurências. Em meio de águas terrosas me arranquei ao ventre-solo, à luz fui dada gritando o som do silêncio. Vivi sob o azul, aspirei águas do alto. Cresci, fiz-me moça forte, vesti-me de flores primeiro, depois: enfrutesci. Tornei-me generosa, ofereci os próprios filhos, abri os braços aos céus e, em cada ano, o processo repeti. Com os pés assentes na terra – um só pé, uma só planta – entreguei-me a esta vida, nunca saindo da casca. Vi amores na minha sombra, vi um ninho nos meus braços, vi o sol entre os meus dedos, cortaram-me aos pedaços e aí...perdi os medos!

M.A. 2000

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Finalmente uma gestão DEMOCRÁTICA!

Beijo


Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
Um beijo é culpa
Que se desculpa:
Dá!
A borboleta
Beija a violeta
Vá!
Um beijo é graça
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me?
Louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo,
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
Oh! dois? Piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!
Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as virtudes;
Três.
As folhas santas
Que o lírio fecha,
Vês?
E não o deixam
Manchar,
são... quantas?
Três!
João de Deus

A Ínsula riscada a azul...





M.A. 2008

Era uma vez várias vezes (12)

Era uma vez um grãozinho e uma pedrinha. Ele era escuro e um pouco azedo, ela muito pálida e… uma doçura. Talvez por estas características tão opostas se dizia que tinham sido feitos um para o outro. Ele, através do seu travo azedo, transportava-nos para belas paisagens africanas, contudo, estava sempre presente um passado de sofrimento e de trabalho escravo. Ela, pelo seu sabor suave e doce, tudo fazia esquecer.
Em momentos de maior ternura, ele chamava-lhe meu torrãozinho de açúcar, ela dizia que ele era o tal do gostinho especial.
Ela habitava uma linda casinha, muito janota, cujo tecto se abria frequentemente (vulgus: açucareiro). Ele, uma casa toda envidraçada que lhe permitia ver o mundo. Por vezes, guardavam-no num local muito iluminado e muito fresquinho; como era um rapaz quente, isso agradava-lhe bastante. O problema era ficar, durante uns tempos, sem ver a pedrinha.
Sempre que se encontravam perto um do outro, ouviam os cantores preferidos dele: Billie Holiday, Sarah Vaughan, Louis Armstrong, Diana Ross e até mesmo Sara Tavares e Raúl Ouro Negro (está-se mesmo a ver porquê!). Tinha um fraquinho por este último, porque sempre falava nas moambas, nos machibombos, nas pitongueiras e nos uélélé.
Ora o nosso rapaz de nariz esborrachado estava cada vez mais impaciente, via o seu docinho, menos do que desejava. Ficava ansioso só de pensar que podia terminar os seus dias entre os dentes de algum alarve que quisesse tirar o hálito de alho. Tinha que arranjar maneira de viver em pleno o amor que sentia pela pedrinha. Ela era virgem, ele também nascera no fim de Agosto, tinham que ser forçosamente um do outro.
A menina boca-doce, de tanta espera, estava a ficar completamente derretida. O menino lábio-grosso já não podia com os calores (estava agora fora do frigorífico!).
Um dia, de manhã, o destino foi-lhes favorável, a dona da casa pegou nele e moeu-o (o que não foi nada agradável!), deu-lhe um banho de água quente e deitou-o numa linda banheirinha, às florinhas, que, estranhamente, tinha uma asa. Então, ele percebeu tudo: chegara a hora! Viu pegarem no açucareiro e abri-lo, era ela que chegava…
Perdido de amor, abriu os braços para a receber. Ela, estonteada, deixou-se levar e diluiu-se no travo levemente azedo do seu amado. Agora, abraçados, eram um só. Ali ficaram, muito juntinhos, rodopiando, rodopiando, rodopiando, rodopiando…

M.A. 1998

domingo, 25 de maio de 2008

Evolução I - Mineralizando, empedrecidamente...



Em tempos que já lá foram, em tempos que nunca fui, existi endurecido, vivendo impenetrável num país de não vivência. O meu carácter era inflexível, o meu espírito empedernido, não desbloqueava a minha vontade por nada deste mundo. Era forte, indomável, não me arrancavam palavra – o silêncio era o meu lema. Os meus pais, dois rochedos, eram pura imaginação! Na verdade, eu não nascera: eu mineralizara. Eu também não crescera: apenas me acumulara. O que me levou não foi morte, mas simples erosão. A dureza inicial tornou-se desgaste total...
Não pensei, não vivi, não amei: não sofri!

Duramente resisti mudo e quedo que nem um penedo neste estado a que chamam mineral. Sabia que não sentia, sentia que não sabia – o conhecimento era importante, o saber, imprescindível. Tinha uma capacidade que me era muito própria: sonhar! Sonhava o movimento, sonhava o sentimento, sonhava o poder não estar, sonhava o poder sonhar.
E assim, com vontade férrea (ou melhor, com vontade pédrea!) senti-me tranformar, senti-me tamorfosear...


M.A. 2000