sábado, 19 de abril de 2008

Pai, eu quero um gayme boy!

Revelação à família...

Desisto!



Explicou-me pormenorizadamente o que havia a fazer durante o dia: encontros com associações pró-ambientais, uma entrevista com Raul Indipwo, algumas notícias (catastróficas, como de costume), alguém que decide por mim, eu que decido por alguém, uma freira que percebe de arte, o acasalamento dos Koalas, meia-dúzia de pessoas que mudaram de sexo e querem casar- -se, a biografia do Ted Turner, a história dos ABBA, casos da vida, etc., etc.... Deslumbrado com a variedade da minha vida, fico eternamente agradecido a quem tão bem trata de mim. Penso duas vezes. Enraivecido, atiro-lhe um cinzeiro e desisto de tanta animação. Era o que faltava, mandarem em mim!
Pelo sim pelo não, decido adiar a compra do jornal para procurar emprego... Fico em casa. Volto a vestir o pijama, a calçar as pantufas, estendo-me no sofá e, sem mais queixumes, entrego-me desesperadamente...
M.A. 1999

Despedida das Turmas 12º 1A, 3A e 1T


As aulas de Português
tornam-se logo um vício
quando entras na sala e vês
que o prof. é o Maurício!

Não é esta a opinião
de quem vos está a falar,
olhem que esta introdução
era mesmo só a brincar!
Bem disposto ou irritado,
o prof magro e careca,
ou estava inspirado,
ou então era uma seca...
Pelo Verde começámos,
do povo amigo terno,
com eles passeámos
por um Bairro Moderno.
A seguir, e numa boa,
conhecemos uns estranhos
que, ou eram o Pessoa,
ou um guardador de rebanhos.
O Miguel vinha a chegar
e era de bradar aos céus
por andar sempre a negar
a existência de Deus.
A Sofia, com desvelo,
e não era da idade,
procurava o seu modelo
na infância e antiguidade.
Da poesia já cansados,
com a noite no olhar,
ficámos aliviados
pois: Felizmente há Luar!
Começámos por sentir
que não era nada mau
estudar a repressão
no teatro do Sttau.
Alguns, pouco à vontade,
não esperavam grande cousa
nem do bom Freire de Andrade,
nem do mau Principal Sousa.
Finalmente, para acabar,
já vai sendo tradição,
toda a gente ir estudar
o Vergílio e a Aparição.

Depois destas alegrias
e de mais alguns cansaços,
vou-me, agora, despedir:
até à vista e... abraços!
M.A. 2000

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Às vezes, mais vale ficar quieto...

Benny Hill, "O Poço dos Desejos"

Acontece aos... mais bons!



M.A. David de Miguel Ãngelo

Era uma vez várias vezes (4)

Em tempos que já lá vão, havia um ouriço que trabalhava na sua loja, desde o subir até ao descer do sol. Subia o sol, subia o taipal, descia o sol, descia o taipal. E neste sobe-que-
-desce, levava a sua espinhosa vida.
Como já devem ter percebido, tratava-se de um ouriço-caixeiro. Ele, às vezes, não tinha muita paciência para os clientes, e então, quando o obrigavam a subir e a descer a escada uma infinidade de vezes, ficava todo ouriçado, respondia mal, e os fregueses picavam-se frequentemente. Muitas vezes, até lhe subia o sangue à cabeça, mas conforme subia, assim descia. O problema maior é que o sangue ficava muito atrapalhado, porque não percebia muito bem onde começava e terminava a cabeça da alfinetada criatura. O sangue desnorteava-se de tal maneira que ficava vermelho como um tomate, a seguir coalhava e faziam-se belos queijos, aliás famosos em toda a região!
O tomate não entra na história, foi apenas uma mera referência comparativa, e, além disso, não estou para ordinarices…
Voltando ao que interessa, o ouriço vivia um terrível conflito exterior: era uma rosa por dentro, mas o que se via eram os espinhos.
Tanto se fartou dessa vida de elevador que, finalmente, foi radical: comprou um champô-amaciador, rapou-se à máquina zero, ofereceu-se para trabalhar num green, a fazer de bola de golf, conheceu o Balsemão e hoje é dos melhores apresentadores de talk-shows na SIC SIC SIC SIC SIC SIC …

M.A. 1997

O saber: dou-to (douto?)!


Depois de um não saber, encontrou o que procurava: o saber que não sabia. Cheio de ignorância, finalmente percebeu que o inútil estava escrito, o essencial nem sonhado...
Atirou-se (sem saber que não conhecia já tudo o que aprendera) num processo doloroso – o de conhecer o não saber. Pouco a pouco, passo a passo, encontrou o desconhecimento e, sem saber novamente, soube o que não soubera. E assim, com mil desprezos foi tratado cegamente de nulo, ignorante, néscio (ou de louco, simplesmente) por continuar, decidido, a desaprender para sempre.

M.A. 1999

domingo, 13 de abril de 2008

Ah, valente, assim é que é!



Dito por João Villaret, de autor popular

Agridoce


O riso da tua boca
tem a graça da serpente
que ataca a lebre na toca
e a engole de repente.

M.A. 1998