

-É uma pena, coitadita, tão boa rapariga!
-Pois era, sempre tão trabalhadeira, não fazia mal a uma mosca...
-Não se via aquela alma fazer o que quer que fosse de mal, era do trabalho para casa e da casa para o trabalho, não era nenhuma desavergonhada como as que p’r’aí há!
-O que dava dó, era vê-la sempre com aquela tristeza, aquela mania que ninguém a queria...
Se um dia não casasse, morria. E, coitada, ela nem p’ra tia ficava, pois se nem irmãos tinha...
-Eu bem le dizia: ó filha, p’ra que queres um homem? Eles são todos iguais, só querem é beber e gastar o dinheiro com outras mulheres, não vês a minha vida, que inferno! Só quando o meu António se foi (que Deus o tenha, apesar de tudo!) é que tive um bocado de descanso, ó menos agora sei que o que recebo da pensão é só p’ra mim...
-Pois, mas nesse assunto ela não ouvia ninguém, e então viu o maldito do anúncio, pôs-se a cismar nele, e toca de responder, mal sabia ela o que ia acontecer, pobrezita!
-Mas, por acaso, naquele dia, até dava gosto vê-la – tão alegre, parecia uma miúda, nem parecia que era uma mulher de trinta anos...
-Eu ainda le disse: olha que há p’r’aí uns porcalhões que metem anúncios no jornal e querem é abusar d’alguma rapariguita que les apareça...e olha que aquilo da ”paixão escaldante e carnal” não me cheirou nada bem! Claro, com o entusiasmo com que estava, nem ligou meia, aperaltou-
-se toda, até foi à Clotilde dar um jeito ao cabelo e aí vai ela que até tinha rodas nos pés...
-A última vez que a vi, estava à janela, parecia que se estava a despedir de alguma coisa. Mal sabia ela, coitada!
-É verdade, desapareceu, e só ao fim de uma semana, apareceu o que restava dela, nem me quero lembrar!
-Tarado, se isto é gente, há homens que são piores que os bichos, aproveitar-se dela e depois deixá-la p’r’áli naquele estado...
-Bandido, esse nem devia ser preso, eu é que devia tratar dele, cortava-lhos rente e a seguir mandava-o p’ró inferno p’ra pagar p’lo que fez...
-Quanto a ela, pobrezita, já não há nada a fazer, que Deus a tenha...
-Ámen!
-Pois era, sempre tão trabalhadeira, não fazia mal a uma mosca...
-Não se via aquela alma fazer o que quer que fosse de mal, era do trabalho para casa e da casa para o trabalho, não era nenhuma desavergonhada como as que p’r’aí há!
-O que dava dó, era vê-la sempre com aquela tristeza, aquela mania que ninguém a queria...
Se um dia não casasse, morria. E, coitada, ela nem p’ra tia ficava, pois se nem irmãos tinha...
-Eu bem le dizia: ó filha, p’ra que queres um homem? Eles são todos iguais, só querem é beber e gastar o dinheiro com outras mulheres, não vês a minha vida, que inferno! Só quando o meu António se foi (que Deus o tenha, apesar de tudo!) é que tive um bocado de descanso, ó menos agora sei que o que recebo da pensão é só p’ra mim...
-Pois, mas nesse assunto ela não ouvia ninguém, e então viu o maldito do anúncio, pôs-se a cismar nele, e toca de responder, mal sabia ela o que ia acontecer, pobrezita!
-Mas, por acaso, naquele dia, até dava gosto vê-la – tão alegre, parecia uma miúda, nem parecia que era uma mulher de trinta anos...
-Eu ainda le disse: olha que há p’r’aí uns porcalhões que metem anúncios no jornal e querem é abusar d’alguma rapariguita que les apareça...e olha que aquilo da ”paixão escaldante e carnal” não me cheirou nada bem! Claro, com o entusiasmo com que estava, nem ligou meia, aperaltou-
-se toda, até foi à Clotilde dar um jeito ao cabelo e aí vai ela que até tinha rodas nos pés...
-A última vez que a vi, estava à janela, parecia que se estava a despedir de alguma coisa. Mal sabia ela, coitada!
-É verdade, desapareceu, e só ao fim de uma semana, apareceu o que restava dela, nem me quero lembrar!
-Tarado, se isto é gente, há homens que são piores que os bichos, aproveitar-se dela e depois deixá-la p’r’áli naquele estado...
-Bandido, esse nem devia ser preso, eu é que devia tratar dele, cortava-lhos rente e a seguir mandava-o p’ró inferno p’ra pagar p’lo que fez...
-Quanto a ela, pobrezita, já não há nada a fazer, que Deus a tenha...
-Ámen!
M.A. 1999
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