quinta-feira, 15 de maio de 2008

A Hélice


Alice doesn’t live here any more...
Alice volta a morar, vai e volta, volta e vem...
Ali, se houver amor, volta sempre!
Aconteceu entre a asa e a hélice...
A asa bateu na outra e voou,
A hélice, ali se ficou.
A Alice, Alice ficou.
A hélice dá uma volta, outra volta, ou Travolta.
Alice (not Scarlet!) is gone... with the wind!


M.A. 2000

" As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas".


Um dia o Maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o Maurício estava no campo de baskett, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
(...)
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O Maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara baskett. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Bello, Homem de Palavra(s), 1970

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sid'amour à mort.


Si s'Aimer d'Amour,
C'est mourir d'Aimer,
Sont mourus d'Amour,
Sida sidannés,
Les Damnés d'Amour,
A mourir d'Aimer,
Ils sont morts d'Amour,
D'Amour sidanné,
O sida sida sida,
Danger sida,
O sida sida,
Sid'Amour à mort,
O sida, sid'assassin recherché,
Mais qui a mis l'Amour à Mort,
Mon Amour malade,
Ma douleur d'Aimer,
Mon damné d'Amour,
Sida sidanné,
A vouloir t'Aimer,
D'Amour à mourir,
J'en mourrais peut-être,
Sid'assassiné
O sida sida,
Comme le furet Passé par ici
Repassé par là
O sida sid'assassin recherché
Mais qui a mis l'Amour à mort
On rêvait d'Amour
A mourir d'aimer
Et l'on meurt d'amour
Sida sidanné Maladie d'Amour,
Où l'on meurt d'Aimer,
Seul et sans Amour,
Sid'abandonné,
Si s'Aimer d'Amour,
C'est mourir d'Aimer,
Sont mourus d'Amour,
Sida sidannés,
Les damnés d'Amour,
A vouloir s'Aimer,
Ils sont morts d'Amour,
Sid'assassinés.


Barbara

À maneira de Andy Warhol.


Experiências fotográficas.
M.A. 2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

Era uma vez várias vezes (10)

Havia um senhor que se vestia sempre de preto, não porque fosse gótico, mas porque para isso fora predestinado. Gostava de sair apenas à noite, mas não era guarda-nocturno, nem frequentava as docas.
Algumas pessoas confundiam-no com um pássaro, porque tinha asas. Não eram bem asas, era assim a modos que uma membrana interdigital, mas diferente da dos patos. Tinha uns dedos muito desenvolvidos, pois, antigamente, usava muitos anéis. Foram-

-se os ditos, ficaram os dedos. Por essa razão, vivia agora em ruínas. Mais propriamente, vivia nas ruínas de um velho castelo, habitado por mil recordações épicas de um passado.
Como levava uma vida muito nocturna, passeava pelas salas do castelo, imaginando o que lá se passara em outras vidas. Via um rei, na sala do trono. Via belas donzelas, dançando ao som de músicas harmoniosas. Via lautos banquetes servidos por criados de libré.
Tudo imaginação para quem, na realidade, não via um palmo à frente do nariz! Já tentara tudo, tinha ido ao Gama Pinto, para lhe fazerem um exame à córnea, como não era casado, mandaram-no embora.
Foi ao Oculista das Avenidas, não conseguiu adaptar-se às lentes, porque não as via. Finalmente, abriu os olhos e viu que não havia solução para o seu caso. De qualquer modo, soube que deu um belo filme (um bocadinho repetitivo…) e que o Luís Miguel Sintra tinha sido o protagonista. Acabou por perceber porque se chamava mor-cego…
Naquela sua vida obscura, havia ainda uma coisa que era de sobremaneira perturbante: confundiam-no com um guarda-chuva. Houve mesmo um amolador que o amolou bastante, pois queria, a todo o preço, arranjar-lhe as varetas.
Um dia disseram-lhe que o morcego francês era muito mais feliz, porque, embora careca (e isso agora já não era problema, porque havia o minoxidil e os implantes), ele sorri. Ora, se souris, é porque deve ter razões para isso!, pensou o nosso míope amigo.
Procurou, às apalpadelas, o passaporte, meteu-se no primeiro avião para Paris, e lá foi ele, pendurado no tecto, de pernas para o ar, buscar a Felicidade, a Glória e a Vitória da sua existência lutadora.
Encontrou-as, de facto. Estavam no Moulin-Rouge, a dançar o Can-can. Convidaram-no para casa delas, compraram-lhe um capachinho e uns óculos bifocais e hoje são inseparáveis.


M.A. 1998

Apelo à leitura.


M.A. 2008

Não facilite!


Até no sono pode gerar stress.
Aprenda a ressonar!

Rohan Candappa, O pequeno livro do stress

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Beauty changed.

M.A. 2008

Nascido para... CRIAR!


...e ao sétimo dia descansou. Deitou-se, enrolou-se para dentro, fetalizou-se. O cordão sufocava-o. Sufocado, deixou-se estar naquele quente, quente de água, quente de mãe.
Desviveu o que vivera, amortalhou o que matara. O durante era difícil, o antes era passado, o depois sem previsão. Não sabia continuar. Nesses momentos procurava o perdido e, reconstituindo-o, chegava aonde estava: no quente-doce, no quente-ventre, no quente-mãe.
Nunca sonhara o sempre, nada lhe dera tudo, de ninguém recebera entrega.
Insistia em continuar, resistia em desistir?
A campainha soou, tirou o cordão de ouro que o sufocava, desfetalizou-se, desenrolou-se para fora, levantou-se.
Era segunda-feira.
Cheio de alento, criou o Céu e aTerra...


M.A. 2000