sábado, 7 de junho de 2008

Evolução III - Líquidas escorrências...


Da insatisfação à lágrima, da lágrima a uma torrente.
A liquidez assumi como forma permanente.
Escorri pelas encostas, despenhei-me em cascatas, flui por campos e vales. Inundei-me de percursos. Por fim, desaguei. Fiz de mim a imensidão. Dei abrigo a seres aquáticos: os belos, os feios, os perigosos... os misteriosos. O mistério nasceu em mim. Epicamente me cruzaram com naus e caravelas - resisti! Tempestades, maremotos, trombas marítimas, tudo fiz para me preservar – às vezes não consegui...
Fui o símbolo da pureza pela minha limpidez.
Personifiquei a determinação pela minha persistência: água mole em pedra dura...

M.A. 2000

O que o Homem inventa para justificar a vida!


M.A. 2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Make war, not love!





Rohan Candappa, O pequeno livro do stress

Era uma vez várias vezes (13)

Era e não era um elefante. Era, porque se tratava de um espécime da ordem dos proboscídeos. Não era, porque, ao contrário do que era de esperar, ele não estava de trombas. Em vez de estar, ter; em vez de plural, singular.
Ele não foi à tropa por ter o pé chato, mas porque só os homens vão à tropa. Ele não deixou as dedadas na manteiga, porque não tinha dedos. Ele não atravessava os lagos, saltando de nenúfar em nenúfar, porque ainda pesava mais do que a Margarida Martins.
Este elefante nunca entrou numa anedota, nem passou por baixo de portas metido em envelopes!
Era um simpático paquiderme que exibia vulgarmente um sorriso de orelha a orelha (o que já era um bom tamanho de sorriso!). A sua alegria devia-se, certamente, ao facto de ser um animal feliz. Não vivia na selva, não habitava no Jardim Zoológico, morava com o seu não menos simpático dono, numa casinha à beira-lago (do Campo Grande). Costumava ir às compras com ele, sempre empoleirado no seu ombro, tal qual um papagaio. De tal modo assim estava habituado que quando lhe diziam «dá cá o pé», Ele (abreviatura de elefante) estendia a sua mimosa patinha.
O dono tratava-o como um igual, sentavam-se à mesa e comiam juntos. Dava imenso jeito, porque Ele, com toda a facilidade, lhe alcançava o sal ou o que fosse preciso. O que fosse preciso não era bem exacto, já que havia duas coisas que se tornava impossível Ele mexer: uma era a pimenta, pois espirrava imediatamente, o que os obrigava a terem de arrumar a sala toda (tinham, inclusivamente, de voltar a pregar os candeeiros no tecto e os quadros nas paredes.); a outra era a mostarda, porque, como é óbvio, tinha de a chegar ao nariz e, sem se saber porquê, a seguir ficava muitíssimo irritado.
Tinha um hábito terrível: tocar a todas as campaínhas que apanhava à tromba. Já se sabia, por isso, quando ele saía à rua, só se ouvia perguntar «Quem é?», e resposta, nada!
Em casa, ajudava imenso, era Ele que lavava a loiça, as carpetes, o automóvel e até mesmo o dono, quando era verão. Ficava tudo um bocado alagado, mas era uma limpeza!
Tudo ficaria por aqui, se não estivesse a introduzir-se, pouco a pouco, uma ideia fixa, naquela linda cabecinha: ser mais útil à sociedade. Pensou fazer-se astrólogo, mas para gorda já bastava a outra. Experimentou a Abraço, porém, partiu tantas costelas aos sócios que teve de desistir. Nos bombeiros, não havia farda que lhe servisse.
Finalmente, encontrou a solução: foi trabalhar para a construção civil. Conseguiu dragar o Tejo (o que não foi logo à primeira, porque este dizia que era muito homem e não era desses, que bem bastavam as bichas na ponte!), junto ao Terreiro do Paço, o que possibilitou continuarem com as obras que nunca mais avançavam. Era muito rápido na colocação do alcatrão nas ruas, primeiro despejava-o todo e, depois, pisava-o meticulosamente; graças a Ele, os acessos à EXPO estiveram prontos a tempo. Desempenhou muito bem o papel de grua, para tirar da beira-rio os contentores dos retornados. E, sabem que mais? Já viram os lindos candeeiros da ponte Vasco da Gama (aqueles que não encandeiam os barcos, nem os pássaros, que têm uma inclinação especial, que se apagam quando os carros passam, que são azulinhos na parte de cima, que fazem parecer que há uma grande centopeia de pernas para o ar com a cabeça em Lisboa e o rabo no Montijo, ou vice-versa – é mais natural que seja vice do que versa…)? Pois fiquem a saber que foi Ele que os colocou…

M.A. 2000

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu cantei já, e agora vou chorando


Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.


Cantei: mas se me alguém pergunta "quando":
Não sei, que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
Que o passado por ledo estou julgando.


Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.


De quem me queixarei, se tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Luís de Camões

domingo, 1 de junho de 2008

Mesmo na "mouche"!

Problema resolvido.

M.A. 2008

Guiné-Bissau

O Último Adeus Dum Combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Vasco Cabral


Samadura di cabantada di um gueriadur pa liberta si tchon

Naquil tardi kum sai abô bu fica
nô sinti dur di disdja n`gutur
n`odja lárgumas na saibu na
udjus na bardadi.

N`sufuri n´sinti kussa malgós
Na nha alma otcha bu tch
otcha n`na dispidiba n´tissi
dur ku bu lebaba ica son
n`gosta di bô ku tissin
contentamentu otcha
kun saiba ipabia n`gosta
di pecaduris.
Sim! iel kumanda n`bai abô bu fica!

Má, si bu cuda cuma ami n`ca bai i
cuma bu dan ita cédu dur ku molece curpu
di pirdin i son um sunhu di pantadura ku bu
temba.

Má, si n`cana pudi disquissi di cuma ku
nô di n`gosta di n`gosta di n`guturu
Si ami iquil ku abô bu más n`gosta
del pa n`fica na bô isperança de torna
odjan más.


Traduzido para o crioulo
por Sabino Seidi Dias
Semana das Línguas E.S.G.V. 2006/07

Homem prevenido...



M.A. 2008

Assuntos de m.....


«Os políticos e as fraldas
devem ser mudados
frequentemente e
pela mesma razão.»
Eça de Queirós