sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Problema de expressão


Só pra dizer que “tou-te a amar-te”,
nem sempre escolho o melhor português...
e digo sempre “a gente vamos”.
Devia ser como no dicionário.
A Edite Estrela fica sempre bem,
e nunca diz “vocês há-dem”.
A tua língua está tão perto da minha,
mas o que digo está tão longe
do que manda o Lindley Cintra!
Só pra dizer que “tou-te a amar-te”,
sei muito bem que te embaraço,
quando digo “sim sinhora”.
Eu sou o bode respiratório
dos cidadões (prontos) que bebem áuga.
E se houverem umas sladas
que não estivestes a comer...
Vais à runião, no dia treuze,
discutir uns assuntos quaisqueres...
Tu discutistes uns assuntos quaisqueres.
A tua língua está tão perto da minha
e o que digo está tão longe
do que manda o Lindley Cintra!
E é tão difícil dizer “chouriço”,
é bem melhor dizer “chóriço”!
Por isso, esta noite, mostro as maminhas
para resolver o meu problema de expressão.
Quando as veres de perto, bem mais de perto,
até vais esquecer esta má conjugação...


Original dos ClãVersão de Gato Fedorento

Tragédias...


(...)
ÉDIPO
Eu não teria sido o matador de meu pai, nem o esposo daquela que me deu a vida! Mas... os deuses me abandonaram: fui um filho maldito, e fecundei no seio que me concebeu! Se há um mal pior que a desgraça, coube esse mal ao infeliz Édipo!
CORIFEUTeria sido razoável tua resolução, ó Édipo? Não sei dizer, na verdade, se te seria preferível a morte, a viver na cegueira.
(...)
Sófocles, Rei Édipo

Era uma vez várias vezes (22)


Era uma vez uma criatura com um aspecto muito insignificante: um ponto. A sua existência era repleta de equívocos. Uns achavam que o seu campo de acção era a costura, outros que era o humor, os mais maldosos, que ele era apenas um ponto negro…
O nosso protagonista, pelo contrário, dizia que pertencia a todos esses campos e a mais uma infinidade deles! Achava que era polivalente, e pronto (ponto!).
Uma das suas qualidades era o espírito de equipa: associava-se frequentemente a uma amiga, a vírgula, que era muito activa, mas menos determinada (e determinante!) do que ele. Os dois juntos atingiam algum equilíbrio, visto que acentuavam a característica dela e atenuavam a dele.
Tinha ainda outros amigos, havia mesmo uns que eram parecidíssimos com ele, de tal modo que se juntava a um deles e, das três uma, ou introduziam o discurso de alguém, ou apresentavam enumerações, ou explicavam coisas ditas anteriormente. Se trabalhasse com duas dessas almas gémeas, tornava-se um indeciso! Nunca acabava o que estava a dizer. Tinha que se adivinhar o resto, ou ficava-se na escuridão da ignorância!
Outro dos seus colegas era um bocado difícil de aturar, parecia parvo! Tão depressa ficava espantado com tudo e mais alguma coisa, como desatava a dar ordens. Era insuportável! Ainda por cima, tinha um ar arrogantíssimo, muito empertigado, teso que nem carapau!
Finalmente, havia um amigo que era muito engraçado, porque era muito despistado, nunca sabia nada... Passava a vida a fazer perguntas. Ao princípio até tinham pena dele, pois tinha um defeito na coluna: andava sempre curvado. Com o tempo ia-se percebendo que não era defeito, era feitio…
Nas lides da costura, o ponto era um leigo. Já ouvira falar duns primos afastados que nada tinham a ver com ele. Eles dedicavam-se aos bordados, ele à escrita. Eles tinham nomes compridos (um bocado pirosos!): ponto cruz (muito católico!), ponto de arraiolos (este era um bocado lento, alentejano, está visto!), e havia mesmo um que tinha um nome que não enganava ninguém – ponto pé-de-flor! O nosso amigo era simplesmente ponto (até pensavam que era filho de pai incógnito, já que não tinha nenhum apelido!).
Nos seus melhores dias, tinha muito humor o que levava as pessoas a dizer que ele era… um ponto!
Há uma coisa que falta dizer. O ponto tinha um grande desgosto: nas escolas eram raros os miúdos que gostavam dele; escreviam, escreviam e pontos… nada! Ainda por cima, havia também uns escritores (muito modernos!) que embirravam com ele…
Apesar de tudo, lá ia sobrevivendo, ponto aqui, ponto ali, lá ia ficando provado que a importância dele era…ponto assente. Se não fosse valorizado na escrita, pelo menos toda a gente tinha de reconhecer (sobretudo o Henrique Mendes!) que era imprescindível um ponto de encontro.
Embora o seu percurso fosse digno, havia, de vez em quando, pessoas que o espremiam sadicamente, tinham até inventado cremes para acabar com ele!
Não se importava, haveria sempre uma caneta, ou um lápis, para o criar e dar-lhe a importância que ele merecia.
Iria sempre pontuar, iria sempre marcar pontos, iria sempre ser o ponto mais alto… Até decidir ser… o ponto final.


M.A. 2001