quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma viagem ao fundo do... tambor da máquina!

Uma "verdade" a fingir



A é querer ignorar
tudo aquilo que é verdade.
Friedrich Nietzsche

domingo, 14 de setembro de 2008

Les bourgeois...



Há uma coisa mil vezes mais perigosa do que o burguês, é o artista burguês, que foi criado para se interpor entre o público e o génio;
oculta-os mutuamente.

Charles Beaudelaire

Era uma vez várias vezes (21)

Pôs a sua melhor roupa, aquela que tinha ido comprar com a filha, a Vanessa, sempre era uma miúda nova, sempre estava dentro da moda! Sentia-se como nunca, moderna, activa, uma perfeita Marie Claire! As calças de lycra (justíssimas!) ficavam-lhe a matar, era pena ter uns pneuzitos (coisa pouca!), era pena ter, na perna esquerda, uma variz tão grossa que se notava através das calças, era pena as suas pernas já não serem como dantes e terem agora aspecto de serem dois cepos direitos e rijos, mas, enfim, até nem estava nada mal! Os sapatos, com uma aplicação metálica dourada no salto e decotados à frente, ficavam a matar com aquelas calças, era pena o joanete do pé direito que lhe deformava um pouco o sapato! De qualquer modo, a blusa, branca, rendada (tal e qual a que ela vira a uma rapariga que ia imenso à televisão cantar coisas que falavam de mulheres abandonadas e mães solteiras!) tinha comprimento suficiente para lhe tapar um pouco o rabo (que também já não era como dantes!). Sentia-se o Máximo! (sem ofensa para este!).
Ajeitou o cabelo louro, era pena que não tivesse tido tempo de ir fazer uma rançagem à cabeleireira ( a Celeste, uma moça que era um amor, até andava a ensinar a profissão à Vanessa que já lavava cabeças e punha rolos!), porque agora lhe aparecia na raiz uma lista negra (cor natural!) de cada um dos lados do seu risco ao meio que terminava na franja em cascata. Pôs o baton vermelho que guardava para ocasiões mais especiais (aquele que utilizara diariamente à hora de jantar, quando o marido tivera um desvario com a lambisgóia do 4º direito e que, segundo ela, o levara a entusiasmar-se novamente pela sua rica mulherzinha!), era pena ter-se-lhe acabado a cera depilatória, porque o buço até parecia que sobressaía, ainda mais, com o dito baton.
Estava o que se chama «uma lasca»! Se o marido a visse assim, ficava cheio de ciúmes, porque, obviamente, estava um pedaço de mau caminho, como dizem os brasileiros.
Remirou-se ao espelho, pela vigésima vez, e concluiu que era pena ter gasto o dinheiro que tinha guardado para o Wonderbra e ter acabado por comprar uma imitação barata que lhe fazia o peito ainda mais flácido e lhe punha uma mama mais acima do que a outra. Ninguém devia reparar nesses pequenos pormenores, isto era a cabeça dela já a exagerar, certamente!
Faltava o último retoque, a sombra… Era lindíssima, tinha sido a cunhada, a Luisete, que trouxera da Alemanha no último natal. A Luisete até dissera que a patroa dela, que era chiquérrima, usava um muito semelhante. Satisfeitíssima, barrou literalmente as pálpebras desde as sobrancelhas negras e espessas (como se usava!) até às pestanas com aquela pasta de um azul celeste, qual manto de Nossa Senhora…
Enfim, estava pronta para enfrentar o mundo, maravilhosa, gostosona, boazuda (como dizem os brasileiros, claro!).
Tocaram à porta, era a vizinha do 2º esquerdo, uma grande amiga! Saíram as duas, dirigiram-se para a paragem do autocarro, lá o apanharam e, gemendo todo o percurso (era hora de ponta!), lá se foram equilibrando nos saltos, nos joanetes e nos calos que insistiam em devorar-lhes os dedos mindinhos. Chegaram finalmente ao destino e, amarrotadas, espezinhadas e já um pouco fulas da vida (como dizem os brasileiros!), dirigiram-se aos estúdios da SIC. Iam assistir a um concurso, onde, além de darem prémios espectaculares (alguns no valor de dez ou mesmo vinte contos!), faziam homenagens a pessoas por boas acções que elas tivessem praticado. Entraram para um grande estúdio, aguardaram até lhe mandarem bater palmas e gritar perdidamente (elas obedeceram e gritaram como duas perdidas!) …
A apresentadora entrou, a sala levantou-se em peso; deslumbrada, a nossa amiga pairava como num sonho… Então tudo se precipitou, ouviu o seu nome, chamaram-na ao palco, virou-se para a amiga, dizendo «ah, malandra fostes tu!». No palco estava alguém que a queria homenagear: era a lambisgóia do 4º direito que queria agradecer-lhe a generosidade de lhe ter emprestado o marido todos aqueles anos e convidá-la para madrinha de uma criança que tinha tido com o marido dela…
Ela só teve tempo de dizer «Eu não estava à espera! Ai, não acredito! Não tenho palavras…» e, comovidamente, alagadas em lágrimas, as duas caíram nos braços uma da outra.

M.A. 2001