Era duas vezes um menino que gostaqueria apanhar o sol, esse menino e a outra vez eram obviamente iguais como duas diferentes gotas de água. Uma gota, a que ficara cativa mais tempo, era morna; a outra era ferventemente escaldante, daí o ter-se desuterado mais cedo. O menino queria, por que sim, o sol. Desejava-o mornamente, sempre que era dia, e escaldante-ferventemente, quando era noite.O dia não era todos os dias, mas apenas, às vezes, quando a água o permentia. A noite era com o que ele se vestia. Enfiava, sem querer, as mangas desestreladas, ajustava o colarinho de lua, desinteressadamente, e metia para dentro das calças escuras a fralda negra, para não tropeçar nela, na sombra do chapéu. O desejo, tão ardente, de possuir o sol vinha-lhe da desvontade de passear a vida às escuras. Certo dia, estando mornamente à espera que deslizasse lá do céu a estrela-mais-que-as-outras, e, estando acompanheirado da sua efeverscente partícula de água gémea, reparou que, sentado, esperando, o parto de luz nunca aconteceria…
Levantou-se, abraçou-se e, despindo a camisa que tantas forças lhe exigia, misturou-se à temperatura ambiente e…era uma vez um menino…
M.A.1997






