sábado, 10 de maio de 2008

Leitura de imagem (10º ano)






Vários objectos simbólicos se apresentam nesta imagem: o espelho que mostra o outro lado da “realidade” (que já por si é subjectiva!), o culto do tempo, representado pelo relógio ladeado por dois castiçais (embora as velas estejam queimadas ou sejam inexistentes!), como nos altares dos santos ou como no culto dos mortos... A chaminé, lugar da lareira – centro do lar (e de onde deriva a palavra...)
- é um signo que se apresenta “trespassado”, “atravessado” ou PERFURADO por um comboio, elemento “revolucionário” para uma certa época, mas anacrónico em relação aos dias de hoje. É de reparar que se trata de uma máquina a vapor que invade “o lar” e vai desorganizar o tempo... (ligações mais rápidas, possibilidade de evasão, de fuga, desvalorização do núcleo familiar, em favor da abertura para o exterior).
Assim, talvez se possa deduzir uma mensagem que pretende mostrar que pode haver sempre elementos que “surgem” num tempo, introduzindo-se nele e alterando-o para sempre como um intruso que, a partir do momento em que se insere numa “realidade”, deixa de o ser...
Sintetizando: uma tranquilidade, “normalidade” é abalada por um elemento estranho, o qual acaba por ser absorvido, aceite e “normalizado”...

Não poderá esta imagem levar a uma reflexão sobre o que, começando por causar estranheza, acaba por provocar a aceitação e, mesmo, a atracção?

Maurício A.

M. A. 2008

Que mau ambiente! - pensou ela.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ó pés, para que vos quero?


Era uma vez várias vezes (9)

Esta é a história de uma pomba branca que tinha a mania que era o Espírito Santo. Desconfiava-se que ela tinha apanhado a gripe asiática das galinhas, porque apresentava sintomas de grande confusão mental.
Ora esta colombina, durante a semana, não fazia senão falar em dinheiro: no investimento no empreendimento x, nas acções da empresa y, na reforma do palacete z. Dizia mesmo à boca cheia (portanto, à hora das refeições!) que o seu Banco era o melhor de todos.
De segunda a sexta, voava de Cascais, deixava as crianças no Sagrado e tinha infindas reuniões (dizia ela…). Não gostava, de todo, de se misturar com aquelas pombas classe-baixa que andavam nos Restauradores, à volta da estátua e com as outras, mais escuras, que tinham vindo sabe-se lá de onde, e permaneciam horas, por trás da Suiça e na frente do D.Maria. O que mais a irritava era a destruição do património! Ela que tinha seis casas de banho chiquérrimas, todas em dourado, branco e azul-marinho, não admitia que as outras não se segurassem e vá de conspurcar os monumentos! Enfim, gentinha!
A nossa brasonada voadora achava o máximo tomar o chá, pontualmente às cinco (noblesse oblige…), num dos melhores hotéis da capital (tá a ver!?). Cacarejavam tanto, ela e as amigas, que mais parecia que pertenciam à ordem das galináceas.
Isto estaria muito certo (enfim…), se, aos fins-de-semana, ou melhor, ao Domingo (porque ao Sábado ainda dava umas bicaditas nos campos de golf de uns tios, amorosos!), ela não apresentasse características espantosas: voava incessantemente sobre a cabeça das pessoas, explicando que haveria de descer uma língua de fogo sobre elas; ia a todos os baptizados e dizia sempre aos pais das crianças e ao padre «Este é o meu filho, bem amado!», o que os deixava confusos, sobretudo aos pais, porque começavam a duvidar das respectivas mulheres. O padres achavam normalíssimo, visto já terem lido um caso semelhante num livro, achavam mesmo divino!
As horas das refeições eram momentos estranhos, quem a acompanhasse ficava biqueaberto. Não comia senão tostas místicas, barrigas de freira, papos de anjo, pães de Deus e toucinho do céu. Molotov, nem vê-lo!
Música, só Madredeus, Santos e Pecadores e Frei Hermano da Câmara (gostava sobretudo da canção «O Espírito de Deus» …).
Para terminar em beleza o Domingo, ia ter com o pai e o filho e iam comer à Trindade!

M.A. 1997

A Viagem


Entraram no carro, saíram da vida.
O destino era imprevisto, a bagagem nenhuma. Ali estavam dois seres que, companheiros de anos, eram estranhos pela primeira vez. A guerra os juntara, o ódio os unira. Partilharam a morte, em nome de um qualquer ideal, vasto, impreciso, longínquo. O alvo era humano, o objectivo incompreensível.
O automóvel derrapou na estrada, entrou num cruzamento e acelerou. Rapidamente o passado veio à memória. O despenhadeiro aproximava-se. O carro abrandou, pararam, saíram.
Quanto à vida, essa, despenhou-se definitivamente.

M.A. 2000

Dos meus monstrinhos...





6 de Maio de 2008, 10º ASC de 2008
e alguns do 10º AS de 2007,
não sei como souberam...

domingo, 4 de maio de 2008

Preparar o alimento do corpo e da mente.



Tiago Cunha Ferreira, UKAMA WANGU,
(Moçambique)