sábado, 14 de junho de 2008

L de Lilás...


Escorregou pelo raio de sol onde estivera todo o dia e, lentamente, aterrou no chão, em terra firme. Isto de terra firme tem que se lhe diga, porque é quando se lá está que vêm os problemas. O sol que a iluminara nas últimas horas era suficiente para ela ver que a vida vale realmente a pena...
Uns olhos, uns lábios, um corpo vago, velado... Nada de concreto, tudo tão concreto! Do sol, passou a uma nuvem negra, com uma rapidez estonteante. E se não a voltasse a ver?! E se tudo isto não passasse de uma visão meio ilusória?!
Pegou no lápis do pensamento e, em poucos traços, esboçou o esquisso da estratégia a adoptar:

ponto um - o mesmo bar;
ponto dois - a mesma hora;
ponto três - largar a mesma timidez do costume.
Entanto, o sorriso voltou-lhe, maior, mais rasgado, mais sorriso, quase um riso. Soltou, finalmente, a gargalhada que retinha, presa, há dias, não, meses! não, anos...!
A terra firme onde se encontrava – a sua cama, do seu quarto, da sua casa – pareceu-lhe, de repente, os bastidores de um palco onde iria actuar: o do encantamento.
Olhou o relógio - 19 horas. Tinha tempo de se arranjar rapidamente para ir jantar com o pai e a nova namorada e, depois, ainda vir a casa mudar de roupa (sim, porque a roupa para o jantar não teria positivamente nada a ver com o que iria vestir para sair à noite! O pai não achava grande graça a ousadias no vestuário...).
O casaco e as calças azul-claro estariam perfeitamente para corresponder ao ar certinho de que o pai tanto gostava. Quanto à namorada do pai, que ainda não tinha visto, conhecia-a perfeitamente: loira, de colchão no penteado, óculos grandes de lentes dégradé, tailleur cor-de-rosa (talvez bege, numa versão mais discreta!) – limpinho!
Espreguiçou-se na cama a ganhar coragem para a primeira fase da noite, para as respostas às perguntas-observações do pai: então, filha, cheia de namorados, como de costume? põe-te a pau que estás com trinta anos e não podes ter sempre essa vida tão diversificada, vê se assentas... Qualquer dia explodia e dizia-lhe a razão de não ter assentado! Bom, por agora, paciência, porque outros valores mais altos se levantam.
Deu um pulo da cama, de cuecas e soutien observou-se no espelho, não parecia ter trinta anos, tinha um ar de miúda. Apanhou o cabelo, vestiu o fato e calçou uns sapatos azuis escuros com um pequeno salto. Mais uma olhadela no espelho. Cara lavada, sem pinturas, talvez apenas um pouco de rímel, e um bocadinho de blush...
Jantar no restaurante do costume, namorada do costume, conversa do costume!
- Já vais, filha?
- Gostaria de ficar mais um pouco, pai, mas amanhã, como sabe, levanto-me cedo!
Até a desculpa foi a do costume!
Onze horas. Correu para casa.
Espelho de novo, agora perdera toda a determinação quanto à roupa. Apetecia-lhe pôr uns jeans justos, uma camisa larga por fora das calças e uns ténis. Nada disso! Tinha de se sentir, digamos que... apetecida.
Afagou os braços e as coxas, achou-se firme e macia. Beijou a sua imagem no espelho, antecipando outro rosto, outro reflexo. Optou pelo vestido preto curto que se lhe colava ao corpo. Realçava-lhe a doçura do contorno das ancas, o redondo firme das nádegas e permitia uma vaga oscilação dos seios, agora livres do soutien. Soltou o cabelo castanho-escuro, abanando a cabeça e deixando-o espalhar-se livremente pelos ombros e costas. Sapatos de salto, também pretos. Retoque final, o baton cor-de-cereja. Olhou o seu reflexo, gostou do que viu. Trepou pelo raio de sol por onde havia escorregado e aí estava ela no bar da personagem misteriosa. Olhou à volta havia uma multidão. Do anjo azul, nem sinal. Não desesperou logo. Decidiu esperar. Pediu uma bebida e sentou-se num canto bem escondido. A hora que ali passou volveu-se em eternidade.
A dada altura sentiu uma mão no ombro, estremeceu, sentiu abrasar-se-lhe o rosto. Ouviu uma voz – Posso fazer-lhe companhia? Está tão sozinha...
Virou-se, um homem, ainda novo, deu a volta ao sofá e sentou-se ao seu lado. Não lhe ocorreu nada para lhe dizer. Ouviu-o, sem o ouvir, olhou-o trespassando-o, tornando-o completamente transparente.
Ao fim de um tempo, a vista embaciou-se-lhe, pareceu deixar de ouvir, tudo se tornou esparso, difuso... Tudo excepto um vulto alto, esfumado que se aproximava, parecendo deslizar por entre a turba dançante. Levantou-se, lentamente, e, ela própria, parecia também deslizar movida por uma qualquer espécie de campo magnético que a impelia para o tal vulto. Foi então que lhe pareceu que todos se afastaram até ao ponto de se formar uma clareira no meio de toda aquela gente. Do vulto se fez um corpo, de um corpo, a imagem desejada e, inexplicavelmente, já próximo dela a imagem falou: Onde estavas, querida, que tanto te procurei, que sempre te esperei, que sempre te desejei?
Era sem dúvida ela, os tais olhos, os tais lábios, o tal corpo que deixara de ser vago e velado para ser inteiro, palpável, perfeito...
Ouviu, então, a sua própria voz responder: Estava, querida, onde me pudesses encontrar, onde me pudesses esperar, onde me pudesses desejar.
Sentiu um súbito calor intenso, percebeu que era o seu raiozinho de sol que a esperava. Desta vez, e como sempre desejara, não o subiu sozinha. Desta vez, e como sempre o desejara, não o desceu sozinha.
Desta vez, e em terra firme, quatro mãos se confundiram, quatro coxas se entrelaçaram, duas bocas se uniram, se devoraram, dois corpos suaram de tanto se desejarem.
No feminino se consumou, no fulvo da paixão de seios, ventres, nádegas, sexos, o extenso colorido que viria a ser... amor.
O raio de sol, às vezes, subia mais alto, e ela perguntava: Onde estás, querida, que não te encontro?
Uma voz sempre lhe respondia: Estou onde me vires, me ouvires, me sentires. Estou sempre onde e quando me quiseres.

M.A. 2001

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