
Era uma vez uma bola que não gostava de futebol e, no entanto, tinha sido feita para esse efeito. Irritava-a imenso ser cabeceada e, pior que isso, de vez em quando, era cada chuto que ela até via estrelas, mesmo não sendo dia de Chuva.
Frequentou vários centros de desintoxicação, mas o caso era problemático porque os seus chutos não eram voluntários. Recomendavam-lhe força de vontade – ela tinha! – mandavam-na estar em descanso – ela não tinha! – enfim, não estava nas suas mãos (?!) alterar a situação.
Depois de uma dessas estadias (estadas?) num centro, ela voltou à sua rebolada vida. Houve, porém, um incidente que a deixou de boca aberta (?!): mal ela chegou ao campo, alguém gritou - «Bola ao centro!» - e lá foi ela outra vez para onde tinha vindo…
E assim seguia a sua vida: muito centro e muito chuto – Era uma droga!
Resolveu encher os pulmões (com a ajuda daquelas bombas que também dão para encher pneus de bicicletas e colchões pneumáticos) e decidiu tentar outro centro… Foi ao Colombo, mas como só viu árvores enormes, rapariguinhas encostadas a balcões, (à espera não sabia de quê!) e muita gente às voltas (à espera não sabia de quê!), pensou que se tinha enganado e que aquilo era o parque de Monsanto. Foi-se embora, claro! Prostituição nunca, antes chutos e pontapés (odiava os Delfins!).
Disseram-lhe que, ao pé de Belém, havia outro centro. Não sabia onde era, mas pôs-se a Caminho, porque alguns dias atrás tinha tentado a Asa e a Texto e não tinha gostado muito. Quando chegou a Belém, achou que Nossa Senhora e São José tinham tido bom gosto em ter ido lá para nascer o menino Jesus, porque sempre havia onde se esconderem, sobretudo numa fortaleza que lá estava, toda em pedra e com janelinhas muito pequeninas. Qual não foi o seu espanto, quando soube que o dito centro era aquilo, - Deus a livrasse! – em pedra? Farta de pedras estava ela! Como já sabemos, a sua vida era Pedra sobre pedra… Ainda se fosse o Renascer!
Tentou a sua sorte, pela última vez, e deslocou-se ao CascaiShopping. Também não foi muito à bola com aquilo, era muita esplanada, muito cheiro a pipocas, muito hamburguer, muita criança aos gritos, muito pai à chapada aos filhos, muito fato de treino, muito telemóvel a tocar, muita sogra loira de cabelo ripado e bigode, muito sovaco sem desodorizante, muito Big Show Sic ao vivo…
Desesperou, fugiu desembolada escada rolante acima (nunca tinha rolado em cima de outra coisa que, por sua vez, também rolava!) e rebolou para um dos cantos, estafada e sentindo-se vazia por dentro (pudera, com a confusão saltara-lhe o pipo!)…
Então, tudo se passou muito precipitadamente, alguém agarrou nela, abriram-na ao meio, encheram-na de um creme amarelo, polvilharam-na de açúcar e venderam-na por 150$00 (humilhante!).
Suspirou e já só sentiu os pivots (um deles de ouro) de um velho sôfrego, com o cabelo pintado com tintura de cevadilha, cuja cor lhe escorria, misturada com suor, pela testa e pescoço, por causa do calor e da gula de quem não aguenta mais restrições do colesterol e da diabetes…
Assim terminou a história de uma bola que não se chamava Ana (teria tido melhor sorte!), não frequentara as reuniões dos Narcóticos Anónimos, não tinha jogado na Alemanha, mas que se transformou, sem saber como, em bola de Berlim, depois de os acontecimentos da sua vida se terem sucedido em bola de neve.
M.A. 2000
Frequentou vários centros de desintoxicação, mas o caso era problemático porque os seus chutos não eram voluntários. Recomendavam-lhe força de vontade – ela tinha! – mandavam-na estar em descanso – ela não tinha! – enfim, não estava nas suas mãos (?!) alterar a situação.
Depois de uma dessas estadias (estadas?) num centro, ela voltou à sua rebolada vida. Houve, porém, um incidente que a deixou de boca aberta (?!): mal ela chegou ao campo, alguém gritou - «Bola ao centro!» - e lá foi ela outra vez para onde tinha vindo…
E assim seguia a sua vida: muito centro e muito chuto – Era uma droga!
Resolveu encher os pulmões (com a ajuda daquelas bombas que também dão para encher pneus de bicicletas e colchões pneumáticos) e decidiu tentar outro centro… Foi ao Colombo, mas como só viu árvores enormes, rapariguinhas encostadas a balcões, (à espera não sabia de quê!) e muita gente às voltas (à espera não sabia de quê!), pensou que se tinha enganado e que aquilo era o parque de Monsanto. Foi-se embora, claro! Prostituição nunca, antes chutos e pontapés (odiava os Delfins!).
Disseram-lhe que, ao pé de Belém, havia outro centro. Não sabia onde era, mas pôs-se a Caminho, porque alguns dias atrás tinha tentado a Asa e a Texto e não tinha gostado muito. Quando chegou a Belém, achou que Nossa Senhora e São José tinham tido bom gosto em ter ido lá para nascer o menino Jesus, porque sempre havia onde se esconderem, sobretudo numa fortaleza que lá estava, toda em pedra e com janelinhas muito pequeninas. Qual não foi o seu espanto, quando soube que o dito centro era aquilo, - Deus a livrasse! – em pedra? Farta de pedras estava ela! Como já sabemos, a sua vida era Pedra sobre pedra… Ainda se fosse o Renascer!
Tentou a sua sorte, pela última vez, e deslocou-se ao CascaiShopping. Também não foi muito à bola com aquilo, era muita esplanada, muito cheiro a pipocas, muito hamburguer, muita criança aos gritos, muito pai à chapada aos filhos, muito fato de treino, muito telemóvel a tocar, muita sogra loira de cabelo ripado e bigode, muito sovaco sem desodorizante, muito Big Show Sic ao vivo…
Desesperou, fugiu desembolada escada rolante acima (nunca tinha rolado em cima de outra coisa que, por sua vez, também rolava!) e rebolou para um dos cantos, estafada e sentindo-se vazia por dentro (pudera, com a confusão saltara-lhe o pipo!)…
Então, tudo se passou muito precipitadamente, alguém agarrou nela, abriram-na ao meio, encheram-na de um creme amarelo, polvilharam-na de açúcar e venderam-na por 150$00 (humilhante!).
Suspirou e já só sentiu os pivots (um deles de ouro) de um velho sôfrego, com o cabelo pintado com tintura de cevadilha, cuja cor lhe escorria, misturada com suor, pela testa e pescoço, por causa do calor e da gula de quem não aguenta mais restrições do colesterol e da diabetes…
Assim terminou a história de uma bola que não se chamava Ana (teria tido melhor sorte!), não frequentara as reuniões dos Narcóticos Anónimos, não tinha jogado na Alemanha, mas que se transformou, sem saber como, em bola de Berlim, depois de os acontecimentos da sua vida se terem sucedido em bola de neve.
M.A. 2000
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