
Era uma vez um piano francês que tocava no gato e falava maltês. Passo a explicar: era francês, porque tinha nascido em França, tocava no gato, porque eu tinha que pôr qualquer coisa relacionada com o gato e falava maltês, porque tinha aprendido com o atrás citado.
Qualquer destas características não interessa nada, como se verá… A questão central é o problema dentário da personagem.
Embora tivesse muitos dentes sãos, tinha também bastantes num estado lastimoso. Ele era tártaro, ele era cáries, ele era tudo!
Recordava com saudade o tempo em que exibia uma maravilhosa dentadura, bem equilibrada: umas teclas imaculadamente brancas, outras impecavelmente pretas. Nunca percebera aquela história de racismo e apartheid (só cabia na cabeça dos homens!), pois, que graça tinha tudo branco, ou tudo preto? Estava absolutamente de acordo com os outros que cantavam Ebony and Ivory live together in perfect harmony!
Apesar de ser uma criatura feliz, todas as músicas lhe saíam allegro ma non tropo; as notas que emitia, mais feias que as do Banco de Portugal, eram ainda inferiores às de Matemática dos
exames de 12º ano.
Não podia esforçar-se muito, porque as cordas vocais(?) também não lho permitiam, embora ele, toda a vida, não fosse de grandes gritarias. Desde novo, ele ouvia a dona dizer-lhe piano, piano! – fazia-lhe uma certa confusão, pois nunca percebera se a senhora (que era italiana!) estava a chamar por ele, ou se estava a mandá-lo tocar mais baixo.
A sua vida ficara reduzida a permanecer em casa, é certo que o tratavam bem, havia até uma miúda engraçadota que lhe dava massagens de óleo de rícino tão eficazes que, no fim, fazia concorrência ao espelho da sala, sentia-se como novo!
A dona começou a perceber que algo não ia bem e resolveu chamar um afinador (uma mistura de dentista com otorrinolaringologista). Allegro!
O afinador chegou lá a casa. O nosso amigo ficou tão nervoso que lhe saltou a tampa. Acalmou-se, logo de seguida, quando o dito senhor lhe mandou arreganhar o teclado.
O afinador-dentista-otorrinolaringologista fez uma cena: então, aquilo eram dentes que se apresentassem? Era óbvio que ele não tinha os cuidados de higiene necessários! Os dentes tinham de ser lavados várias vezes ao dia! Lavavam-se de baixo para cima e não da esquerda para a direita, ou vice-versa! Blá-blá-blá blá…!
Passou-lhe uma receita que mais parecia a partitura completa de uma obra de Puccini: lavagens constantes com Dentagard, bochechos, gargarejos, fio dental, etc., etc…
O nosso piano não desanimou, pois já tinha ouvido falar de tratamentos piores. Lembrava-se, por exemplo, de uma limpeza que tinha sido feita ao órgão dum amigo da sua dona, tinha sido terrível e, sobretudo, humilhante!
Assim, acatou rigorosamente as instruções que lhe tinham sido dadas. Aquilo, agora, não era uma vida: era uma barrela!
O que é certo, ao contrário do que acontece na maior parte das vezes, é que os resultados se viam a olhos vistos (?). Retomou a música, primeiro a medo, pianíssimo. Começou por um adagio: «Quem porfia mata caça.». Finalmente, resolveu voltar à orquestra.
O dia da estreia foi inesquecível! Olhou em redor, estavam lá todos os seus companheiros: os sopros, as percussões, as cordas… O concerto começou, daquela vez nem embirrou com o homem que lá estava à frente, com um ponteiro na mão, todo despenteado, a apontar não sei para onde, e por que razão. Correu tudo bem! Estava mais feliz do que nunca!
Allegro Vivace!
M.A. 2000
Qualquer destas características não interessa nada, como se verá… A questão central é o problema dentário da personagem.
Embora tivesse muitos dentes sãos, tinha também bastantes num estado lastimoso. Ele era tártaro, ele era cáries, ele era tudo!
Recordava com saudade o tempo em que exibia uma maravilhosa dentadura, bem equilibrada: umas teclas imaculadamente brancas, outras impecavelmente pretas. Nunca percebera aquela história de racismo e apartheid (só cabia na cabeça dos homens!), pois, que graça tinha tudo branco, ou tudo preto? Estava absolutamente de acordo com os outros que cantavam Ebony and Ivory live together in perfect harmony!
Apesar de ser uma criatura feliz, todas as músicas lhe saíam allegro ma non tropo; as notas que emitia, mais feias que as do Banco de Portugal, eram ainda inferiores às de Matemática dos
exames de 12º ano.
Não podia esforçar-se muito, porque as cordas vocais(?) também não lho permitiam, embora ele, toda a vida, não fosse de grandes gritarias. Desde novo, ele ouvia a dona dizer-lhe piano, piano! – fazia-lhe uma certa confusão, pois nunca percebera se a senhora (que era italiana!) estava a chamar por ele, ou se estava a mandá-lo tocar mais baixo.
A sua vida ficara reduzida a permanecer em casa, é certo que o tratavam bem, havia até uma miúda engraçadota que lhe dava massagens de óleo de rícino tão eficazes que, no fim, fazia concorrência ao espelho da sala, sentia-se como novo!
A dona começou a perceber que algo não ia bem e resolveu chamar um afinador (uma mistura de dentista com otorrinolaringologista). Allegro!
O afinador chegou lá a casa. O nosso amigo ficou tão nervoso que lhe saltou a tampa. Acalmou-se, logo de seguida, quando o dito senhor lhe mandou arreganhar o teclado.
O afinador-dentista-otorrinolaringologista fez uma cena: então, aquilo eram dentes que se apresentassem? Era óbvio que ele não tinha os cuidados de higiene necessários! Os dentes tinham de ser lavados várias vezes ao dia! Lavavam-se de baixo para cima e não da esquerda para a direita, ou vice-versa! Blá-blá-blá blá…!
Passou-lhe uma receita que mais parecia a partitura completa de uma obra de Puccini: lavagens constantes com Dentagard, bochechos, gargarejos, fio dental, etc., etc…
O nosso piano não desanimou, pois já tinha ouvido falar de tratamentos piores. Lembrava-se, por exemplo, de uma limpeza que tinha sido feita ao órgão dum amigo da sua dona, tinha sido terrível e, sobretudo, humilhante!
Assim, acatou rigorosamente as instruções que lhe tinham sido dadas. Aquilo, agora, não era uma vida: era uma barrela!
O que é certo, ao contrário do que acontece na maior parte das vezes, é que os resultados se viam a olhos vistos (?). Retomou a música, primeiro a medo, pianíssimo. Começou por um adagio: «Quem porfia mata caça.». Finalmente, resolveu voltar à orquestra.
O dia da estreia foi inesquecível! Olhou em redor, estavam lá todos os seus companheiros: os sopros, as percussões, as cordas… O concerto começou, daquela vez nem embirrou com o homem que lá estava à frente, com um ponteiro na mão, todo despenteado, a apontar não sei para onde, e por que razão. Correu tudo bem! Estava mais feliz do que nunca!
Allegro Vivace!
M.A. 2000
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