sexta-feira, 6 de junho de 2008

Era uma vez várias vezes (13)

Era e não era um elefante. Era, porque se tratava de um espécime da ordem dos proboscídeos. Não era, porque, ao contrário do que era de esperar, ele não estava de trombas. Em vez de estar, ter; em vez de plural, singular.
Ele não foi à tropa por ter o pé chato, mas porque só os homens vão à tropa. Ele não deixou as dedadas na manteiga, porque não tinha dedos. Ele não atravessava os lagos, saltando de nenúfar em nenúfar, porque ainda pesava mais do que a Margarida Martins.
Este elefante nunca entrou numa anedota, nem passou por baixo de portas metido em envelopes!
Era um simpático paquiderme que exibia vulgarmente um sorriso de orelha a orelha (o que já era um bom tamanho de sorriso!). A sua alegria devia-se, certamente, ao facto de ser um animal feliz. Não vivia na selva, não habitava no Jardim Zoológico, morava com o seu não menos simpático dono, numa casinha à beira-lago (do Campo Grande). Costumava ir às compras com ele, sempre empoleirado no seu ombro, tal qual um papagaio. De tal modo assim estava habituado que quando lhe diziam «dá cá o pé», Ele (abreviatura de elefante) estendia a sua mimosa patinha.
O dono tratava-o como um igual, sentavam-se à mesa e comiam juntos. Dava imenso jeito, porque Ele, com toda a facilidade, lhe alcançava o sal ou o que fosse preciso. O que fosse preciso não era bem exacto, já que havia duas coisas que se tornava impossível Ele mexer: uma era a pimenta, pois espirrava imediatamente, o que os obrigava a terem de arrumar a sala toda (tinham, inclusivamente, de voltar a pregar os candeeiros no tecto e os quadros nas paredes.); a outra era a mostarda, porque, como é óbvio, tinha de a chegar ao nariz e, sem se saber porquê, a seguir ficava muitíssimo irritado.
Tinha um hábito terrível: tocar a todas as campaínhas que apanhava à tromba. Já se sabia, por isso, quando ele saía à rua, só se ouvia perguntar «Quem é?», e resposta, nada!
Em casa, ajudava imenso, era Ele que lavava a loiça, as carpetes, o automóvel e até mesmo o dono, quando era verão. Ficava tudo um bocado alagado, mas era uma limpeza!
Tudo ficaria por aqui, se não estivesse a introduzir-se, pouco a pouco, uma ideia fixa, naquela linda cabecinha: ser mais útil à sociedade. Pensou fazer-se astrólogo, mas para gorda já bastava a outra. Experimentou a Abraço, porém, partiu tantas costelas aos sócios que teve de desistir. Nos bombeiros, não havia farda que lhe servisse.
Finalmente, encontrou a solução: foi trabalhar para a construção civil. Conseguiu dragar o Tejo (o que não foi logo à primeira, porque este dizia que era muito homem e não era desses, que bem bastavam as bichas na ponte!), junto ao Terreiro do Paço, o que possibilitou continuarem com as obras que nunca mais avançavam. Era muito rápido na colocação do alcatrão nas ruas, primeiro despejava-o todo e, depois, pisava-o meticulosamente; graças a Ele, os acessos à EXPO estiveram prontos a tempo. Desempenhou muito bem o papel de grua, para tirar da beira-rio os contentores dos retornados. E, sabem que mais? Já viram os lindos candeeiros da ponte Vasco da Gama (aqueles que não encandeiam os barcos, nem os pássaros, que têm uma inclinação especial, que se apagam quando os carros passam, que são azulinhos na parte de cima, que fazem parecer que há uma grande centopeia de pernas para o ar com a cabeça em Lisboa e o rabo no Montijo, ou vice-versa – é mais natural que seja vice do que versa…)? Pois fiquem a saber que foi Ele que os colocou…

M.A. 2000

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