
Em tempos que já lá foram, em tempos que nunca fui, existi endurecido, vivendo impenetrável num país de não vivência. O meu carácter era inflexível, o meu espírito empedernido, não desbloqueava a minha vontade por nada deste mundo. Era forte, indomável, não me arrancavam palavra – o silêncio era o meu lema. Os meus pais, dois rochedos, eram pura imaginação! Na verdade, eu não nascera: eu mineralizara. Eu também não crescera: apenas me acumulara. O que me levou não foi morte, mas simples erosão. A dureza inicial tornou-se desgaste total...
Não pensei, não vivi, não amei: não sofri!
Duramente resisti mudo e quedo que nem um penedo neste estado a que chamam mineral. Sabia que não sentia, sentia que não sabia – o conhecimento era importante, o saber, imprescindível. Tinha uma capacidade que me era muito própria: sonhar! Sonhava o movimento, sonhava o sentimento, sonhava o poder não estar, sonhava o poder sonhar.
E assim, com vontade férrea (ou melhor, com vontade pédrea!) senti-me tranformar, senti-me tamorfosear...
M.A. 2000
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