sexta-feira, 30 de maio de 2008

Era uma vez várias vezes (12)

Era uma vez um grãozinho e uma pedrinha. Ele era escuro e um pouco azedo, ela muito pálida e… uma doçura. Talvez por estas características tão opostas se dizia que tinham sido feitos um para o outro. Ele, através do seu travo azedo, transportava-nos para belas paisagens africanas, contudo, estava sempre presente um passado de sofrimento e de trabalho escravo. Ela, pelo seu sabor suave e doce, tudo fazia esquecer.
Em momentos de maior ternura, ele chamava-lhe meu torrãozinho de açúcar, ela dizia que ele era o tal do gostinho especial.
Ela habitava uma linda casinha, muito janota, cujo tecto se abria frequentemente (vulgus: açucareiro). Ele, uma casa toda envidraçada que lhe permitia ver o mundo. Por vezes, guardavam-no num local muito iluminado e muito fresquinho; como era um rapaz quente, isso agradava-lhe bastante. O problema era ficar, durante uns tempos, sem ver a pedrinha.
Sempre que se encontravam perto um do outro, ouviam os cantores preferidos dele: Billie Holiday, Sarah Vaughan, Louis Armstrong, Diana Ross e até mesmo Sara Tavares e Raúl Ouro Negro (está-se mesmo a ver porquê!). Tinha um fraquinho por este último, porque sempre falava nas moambas, nos machibombos, nas pitongueiras e nos uélélé.
Ora o nosso rapaz de nariz esborrachado estava cada vez mais impaciente, via o seu docinho, menos do que desejava. Ficava ansioso só de pensar que podia terminar os seus dias entre os dentes de algum alarve que quisesse tirar o hálito de alho. Tinha que arranjar maneira de viver em pleno o amor que sentia pela pedrinha. Ela era virgem, ele também nascera no fim de Agosto, tinham que ser forçosamente um do outro.
A menina boca-doce, de tanta espera, estava a ficar completamente derretida. O menino lábio-grosso já não podia com os calores (estava agora fora do frigorífico!).
Um dia, de manhã, o destino foi-lhes favorável, a dona da casa pegou nele e moeu-o (o que não foi nada agradável!), deu-lhe um banho de água quente e deitou-o numa linda banheirinha, às florinhas, que, estranhamente, tinha uma asa. Então, ele percebeu tudo: chegara a hora! Viu pegarem no açucareiro e abri-lo, era ela que chegava…
Perdido de amor, abriu os braços para a receber. Ela, estonteada, deixou-se levar e diluiu-se no travo levemente azedo do seu amado. Agora, abraçados, eram um só. Ali ficaram, muito juntinhos, rodopiando, rodopiando, rodopiando, rodopiando…

M.A. 1998

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