terça-feira, 13 de maio de 2008

Era uma vez várias vezes (10)

Havia um senhor que se vestia sempre de preto, não porque fosse gótico, mas porque para isso fora predestinado. Gostava de sair apenas à noite, mas não era guarda-nocturno, nem frequentava as docas.
Algumas pessoas confundiam-no com um pássaro, porque tinha asas. Não eram bem asas, era assim a modos que uma membrana interdigital, mas diferente da dos patos. Tinha uns dedos muito desenvolvidos, pois, antigamente, usava muitos anéis. Foram-

-se os ditos, ficaram os dedos. Por essa razão, vivia agora em ruínas. Mais propriamente, vivia nas ruínas de um velho castelo, habitado por mil recordações épicas de um passado.
Como levava uma vida muito nocturna, passeava pelas salas do castelo, imaginando o que lá se passara em outras vidas. Via um rei, na sala do trono. Via belas donzelas, dançando ao som de músicas harmoniosas. Via lautos banquetes servidos por criados de libré.
Tudo imaginação para quem, na realidade, não via um palmo à frente do nariz! Já tentara tudo, tinha ido ao Gama Pinto, para lhe fazerem um exame à córnea, como não era casado, mandaram-no embora.
Foi ao Oculista das Avenidas, não conseguiu adaptar-se às lentes, porque não as via. Finalmente, abriu os olhos e viu que não havia solução para o seu caso. De qualquer modo, soube que deu um belo filme (um bocadinho repetitivo…) e que o Luís Miguel Sintra tinha sido o protagonista. Acabou por perceber porque se chamava mor-cego…
Naquela sua vida obscura, havia ainda uma coisa que era de sobremaneira perturbante: confundiam-no com um guarda-chuva. Houve mesmo um amolador que o amolou bastante, pois queria, a todo o preço, arranjar-lhe as varetas.
Um dia disseram-lhe que o morcego francês era muito mais feliz, porque, embora careca (e isso agora já não era problema, porque havia o minoxidil e os implantes), ele sorri. Ora, se souris, é porque deve ter razões para isso!, pensou o nosso míope amigo.
Procurou, às apalpadelas, o passaporte, meteu-se no primeiro avião para Paris, e lá foi ele, pendurado no tecto, de pernas para o ar, buscar a Felicidade, a Glória e a Vitória da sua existência lutadora.
Encontrou-as, de facto. Estavam no Moulin-Rouge, a dançar o Can-can. Convidaram-no para casa delas, compraram-lhe um capachinho e uns óculos bifocais e hoje são inseparáveis.


M.A. 1998

Sem comentários: