segunda-feira, 30 de junho de 2008

Era uma vez várias vezes (17)

Era uma vez uma nuvem que chovia sem parar. O seu pranto escorria-lhe pela alma como pelos telhados das casas. As lágrimas lavavam-lhe o tormento de uma existência condenada ao choro.
Deslagrimava-se com a violência de um espirro, com a monotonia de um bocejo, com a profundidade de um suspiro… Descompreendia porque razão lhe coubera a ela a triste função de molhar a terra, de fazer crescer as plantas, de dar água ao mundo, às vezes, de alagar a humanidade… Compreendeu, desde sempre, que o resultado do seu carpir tanto dava felicidade aos homens, como lhes destruía a vida e os matava
(Mísera sorte! Estranha condição!).
Um dia, choveu que se fartou, ficou farta de tanto chover, quem quisesse, a partir de agora, que chovesse, ela não estava para isso! Pegou num grande lenço, enxugou os seus cansados olhos e entregou-se à seca (e que seca!)…
Completamente ressequida, pensava que tinha conseguido finalmente atingir a felicidade (mas, parece que ela não se sentiu atingida!), passava o dia a fechar as suas torneiras, a vedar as suas juntas, a obstruir a sua canalização, a tapar os seus ralos. A seca continuava… Fez do deschover o sentido da sua vida…
Começou a sentir que muita coisa mudara, a par da seca, vieram-lhe uns calores que nunca experimentara, sentia-se esbraseada!
Tanto investigou que descobriu a razão da sua nova e quente existência: a culpa era do vizinho! Então não é que se mudara para a casa ao lado um rapagão ruivíssimo, um moço brilhante! Deitava-lhe cada chispa que ela até sentia suores. Bastava um olhar dele para ela ficar irremediavelmente inflamada. Estava a ficar muito preocupada, porque pensava, que, embora fosse ainda nova, já tinha o termóstato avariado…
O seu novo e fogoso amigo não estava com meias medidas, passava o dia a lançar-lhe labaredas, um perfeito assédio! Ela, não podendo resistir, dava-lhe troco (aos cem e duzentos escudos, é claro que ele devolvia tudo, pois dizia-lhe que não estava propriamente ali para arrumar automóveis…).
Foi necessário terem uma conversa escaldante! Ele explicou que tinha nascido para aquele fim – queimar até empolar! Ela, ao princípio, desconfiou, cheirou-lhe a esturro… O rapaz também ficou um bocado de pé atrás com a pequena – nunca vira pessoa mais seca!
E como da discussão nasce a luz, lá tiveram uma filha (a Maria da Luz!) ,e perceberam tudo: estavam na vida com funções opostas… E como os opostos se atraem, juntaram os trapinhos (que ficaram todos queimados!) e ficaram a viver na mesma casa.
A vida tinha as suas dificuldades, mas era de total partilha: ele cozinhava, secava a roupa e a loiça; ela lavava e assegurava os duches (percebeu que a seca não levava a lado nenhum!).
Ele abrasava tudo, ela sabia refrear-lhe os calores…
Ele era quente e afável, ela era fresca e fofinha…
Com o decorrer do tempo viram que não podiam viver apenas um para o outro e para a Luz (que a maior parte das vezes estava acesa – saía ao pai!). Ainda por cima, recebiam inúmeras reclamações em casa, vindas de todo o mundo. É que na terra estava um tempo horrível, estranho: nem chovia, nem fazia sol!
Deitaram mãos à obra. Nunú (era como ele lhe chamava!) telefonou às miúdas do Boletim Meteorológico, que demoraram a atender porque o José António Tenente lhes tinha mandado umas saias incrivelmente travadas, e garantiu que iria recomeçar a assegurar os seus serviços.
Sossó (como ela o tratava), sem grandes explicações, abriu os braços ao mundo.
Os dias que se seguiram foram de sol radioso, mas, ao fim do sétimo dia, aquele em que Deus descansou, a nossa nuvenzinha, decidida, choveu…
Pela primeira vez, chorava de alegria.

M.A. 2000

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