sexta-feira, 23 de maio de 2008

Felinomem



Coçou o focinho com a pata e acendeu um cigarro. O drama da existência residia na dificuldade de identificação. O problema era a busca constante de uma identidade.
O cigarro ajudava-o a pensar. Ronronava, pensando; pensava, ronronando. Espreguiçou o seu corpo felino, lambendo a sua pelagem listada e macia. Pôs os óculos e pegou no livro A Condição Humana. Leu algumas linhas e, apercebeu-se que uma mosca zumbia à sua volta. Deu-lhe uma patada e, levando a pata à boca, engoliu-a de uma vez.
Sem perceber o que lia, resolveu ler em voz alta. Miou páginas seguidas, compreendendo que ser humano era condição penosa. Deu um salto do sofá para a mesa, tombou o copo vazio do brandy que bebera de um só trago. O álcool clarificava-lhe as ideias, ajudava-o a perceber a sua realidade: era adulto, era gente, era homem! Poderia enfrentar a dúvida existencial sem ser preciso entrar em depressão. Animado por esta certeza, saltou da mesa, deu uma corrida pelo extenso corredor, escorregando nos tapetes, e abocanhou finalmente o rato que morava havia anos num armário da cozinha.


M.A.2000

1 comentário:

MC disse...

beeem , amo este texto
mt bom
=)