Esta é a história de uma pomba branca que tinha a mania que era o Espírito Santo. Desconfiava-se que ela tinha apanhado a gripe asiática das galinhas, porque apresentava sintomas de grande confusão mental.Ora esta colombina, durante a semana, não fazia senão falar em dinheiro: no investimento no empreendimento x, nas acções da empresa y, na reforma do palacete z. Dizia mesmo à boca cheia (portanto, à hora das refeições!) que o seu Banco era o melhor de todos.
De segunda a sexta, voava de Cascais, deixava as crianças no Sagrado e tinha infindas reuniões (dizia ela…). Não gostava, de todo, de se misturar com aquelas pombas classe-baixa que andavam nos Restauradores, à volta da estátua e com as outras, mais escuras, que tinham vindo sabe-se lá de onde, e permaneciam horas, por trás da Suiça e na frente do D.Maria. O que mais a irritava era a destruição do património! Ela que tinha seis casas de banho chiquérrimas, todas em dourado, branco e azul-marinho, não admitia que as outras não se segurassem e vá de conspurcar os monumentos! Enfim, gentinha!
A nossa brasonada voadora achava o máximo tomar o chá, pontualmente às cinco (noblesse oblige…), num dos melhores hotéis da capital (tá a ver!?). Cacarejavam tanto, ela e as amigas, que mais parecia que pertenciam à ordem das galináceas.
Isto estaria muito certo (enfim…), se, aos fins-de-semana, ou melhor, ao Domingo (porque ao Sábado ainda dava umas bicaditas nos campos de golf de uns tios, amorosos!), ela não apresentasse características espantosas: voava incessantemente sobre a cabeça das pessoas, explicando que haveria de descer uma língua de fogo sobre elas; ia a todos os baptizados e dizia sempre aos pais das crianças e ao padre «Este é o meu filho, bem amado!», o que os deixava confusos, sobretudo aos pais, porque começavam a duvidar das respectivas mulheres. O padres achavam normalíssimo, visto já terem lido um caso semelhante num livro, achavam mesmo divino!
As horas das refeições eram momentos estranhos, quem a acompanhasse ficava biqueaberto. Não comia senão tostas místicas, barrigas de freira, papos de anjo, pães de Deus e toucinho do céu. Molotov, nem vê-lo!
Música, só Madredeus, Santos e Pecadores e Frei Hermano da Câmara (gostava sobretudo da canção «O Espírito de Deus» …).
Para terminar em beleza o Domingo, ia ter com o pai e o filho e iam comer à Trindade!
M.A. 1997
1 comentário:
Ainda há qualidade de vida, tanto religiosamente, mentalmente,e socialmente. Nada fica ao acaso não me importava de fazer parte da sociedade da "pomba amiga" só é pena é tudo isso faça parte de uma vida tão curta.Lá está não há Bela sem senão
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