Era uma vez um peixe-agulha, ou melhor, uma peixa; o seu trabalho, como era de esperar, era a costura, passava todo o dia às voltas com a agulha e o dedal, minto, com o dedal não, porque não tinha onde o meter (como toda a gente sabe, os peixes têm barbatanas e não dedos). Não tinha mãos a medir, porque lhe davam muito trabalho e porque, como é óbvio, não tinha mãos, nem para medir, nem para o que quer que fosse.O seu trabalho era, geralmente, fazer saias travadas para as sereias, bainhas para os peixes-espada, sacos impermeáveis para a tinta dos chocos, teias
(de seda importada de uns bichos que havia na terra) para os peixes-aranha, etc.
É claro que esta profissão lhe trazia vários problemas: tinha constantemente as agulhas enferrujadas (visto viver debaixo de água), nunca conseguia entregar a roupa seca e tinha imensa dificuldade em prová-la em alguns clientes. O polvo não parava de esbracejar; o golfinho, de vez em quando, tinha de vir à superfície, se não desfalecia-lhe nas barbatanas; a baleia gastava imenso tecido e ela gastava muito tempo para pôr alfinetes naquele corpo todo; mas, sem dúvida, a cliente mais difícil era a enguia que lhe escorregava entre os dedos como se de um sabonete se tratasse. Com tanta água à volta, e ela achava que a vida era uma seca.
Houve um dia que, estando ela mergulhada no seu trabalho, ouviu um galope e depois um relincho à sua porta, só podia ser o cavalo-marinho! Este trazia-lhe o correio, havia uma carta sobre um concurso para jovens costureiras, como ela tinha cinquenta anos ainda estava abrangida! Quem apresentasse o melhor modelo de vestido, passaria a viver no oceanário da EXPO. Como só se estava em Abril de 98, ainda havia muito tempo…
Trabalhou dias inteiros, só quando apareciam as estrelas (do mar, como é evidente!) é que ela ia descansar. Conseguiu fazer um vestido lindíssimo, cheio de escamas de dourada, com belas barbatanas de salmão e um chapéu elegantíssimo, feito de uma alforreca que tinha fama de não mexer uma palha (portanto ia estar quietinha!).
O que é certo é que ela ganhou o primeiro prémio e foi habitar o oceanário em Novembro, ainda antes de abrir a EXPO 98.
Tornou-se tão famosa que foi convidada pelo Zé Carlos a trabalhar na sua equipa e hoje é ela que veste a Alexandra sempre que esta aparece na televisão.
Em Portugal, nunca ninguém estranhou que um peixe fosse tão considerado, porque havia um grande jogador de futebol que também era Peixe e, até mesmo, já tinha havido um Presidente da República que toda a gente dizia que era fish!
M.A. 1998
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