Era uma vez um gatinho que passeava na vida com a plena inconsciência que ainda lhe faltavam seis. Este gatinho ma(e mo-)lhado andava por entre as lágrimas como quem apanha chuva.Um dia, cansado de fazerem dele gato-sapato, resolveu mudar de vida, ficou, portanto, na segunda. Ronmiando, aceitou seguir um “anda cá bichaninho” e experitentar viver de papo para o ar (o que era muito difícil, porque tinha sempre tendência para rebolar para um dos lados).
Ao fim de duas espinhas de carapau, percebeu que lhe tinham vendido gato por lebre e que também aquela vida não era para ele, pois, quando era pequeno, tinha desejado ser coisas inúteis, como polícia ou professor, mas nunca lhe tinha passado pela cabeça ter a profissão de caixote do lixo ambulante. Rombufando, começou a fazer mau focinho aos donos, calçou as botas, e partiu para outra vida (a terceira).
Nesta, não teve melhor sorte, conheceu uma humana que até gostava dele, só que ela começou a ter macaquinhos no sótão, e ele, achando que já era muita gente, partiu para outra (vida…claro!).
Na quarta, e já a 120, perdeu-se de amores por uma gata, mas…era vadia! Como Deus (aquele grande Gato Branco que estava lá em cima) não lhe dera, à nascença, nenhuns apêndices entre as orelhas e estava farto de tanto felino a deitar o olho à pequena, partiu o focinho a meia dúzia, meteu a quinta, e partiu em grande velocidade.
Depois desta experiência com a gata de vida fácil, deixou-se de paixões e encontrou na quinta, finalmente, a tão desejada Felicidade (uma gata giríssima!) .
Afiou as garras, esticou os bigodes e correu pelos campos, todos lavrados. Os amigos eram uns porcos, e alguns, mesmo burros, elas, umas galinhas (quando não eram umas grandes vacas!), porém, ali estava-se bem, não havia as lágrimas, só era malhado…
Focinho seco: gato feliz!
M.A. 1997
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