
Era uma vez uma criatura com um aspecto muito insignificante: um ponto. A sua existência era repleta de equívocos. Uns achavam que o seu campo de acção era a costura, outros que era o humor, os mais maldosos, que ele era apenas um ponto negro…
O nosso protagonista, pelo contrário, dizia que pertencia a todos esses campos e a mais uma infinidade deles! Achava que era polivalente, e pronto (ponto!).
Uma das suas qualidades era o espírito de equipa: associava-se frequentemente a uma amiga, a vírgula, que era muito activa, mas menos determinada (e determinante!) do que ele. Os dois juntos atingiam algum equilíbrio, visto que acentuavam a característica dela e atenuavam a dele.
Tinha ainda outros amigos, havia mesmo uns que eram parecidíssimos com ele, de tal modo que se juntava a um deles e, das três uma, ou introduziam o discurso de alguém, ou apresentavam enumerações, ou explicavam coisas ditas anteriormente. Se trabalhasse com duas dessas almas gémeas, tornava-se um indeciso! Nunca acabava o que estava a dizer. Tinha que se adivinhar o resto, ou ficava-se na escuridão da ignorância!
Outro dos seus colegas era um bocado difícil de aturar, parecia parvo! Tão depressa ficava espantado com tudo e mais alguma coisa, como desatava a dar ordens. Era insuportável! Ainda por cima, tinha um ar arrogantíssimo, muito empertigado, teso que nem carapau!
Finalmente, havia um amigo que era muito engraçado, porque era muito despistado, nunca sabia nada... Passava a vida a fazer perguntas. Ao princípio até tinham pena dele, pois tinha um defeito na coluna: andava sempre curvado. Com o tempo ia-se percebendo que não era defeito, era feitio…
Nas lides da costura, o ponto era um leigo. Já ouvira falar duns primos afastados que nada tinham a ver com ele. Eles dedicavam-se aos bordados, ele à escrita. Eles tinham nomes compridos (um bocado pirosos!): ponto cruz (muito católico!), ponto de arraiolos (este era um bocado lento, alentejano, está visto!), e havia mesmo um que tinha um nome que não enganava ninguém – ponto pé-de-flor! O nosso amigo era simplesmente ponto (até pensavam que era filho de pai incógnito, já que não tinha nenhum apelido!).
Nos seus melhores dias, tinha muito humor o que levava as pessoas a dizer que ele era… um ponto!
Há uma coisa que falta dizer. O ponto tinha um grande desgosto: nas escolas eram raros os miúdos que gostavam dele; escreviam, escreviam e pontos… nada! Ainda por cima, havia também uns escritores (muito modernos!) que embirravam com ele…
Apesar de tudo, lá ia sobrevivendo, ponto aqui, ponto ali, lá ia ficando provado que a importância dele era…ponto assente. Se não fosse valorizado na escrita, pelo menos toda a gente tinha de reconhecer (sobretudo o Henrique Mendes!) que era imprescindível um ponto de encontro.
Embora o seu percurso fosse digno, havia, de vez em quando, pessoas que o espremiam sadicamente, tinham até inventado cremes para acabar com ele!
Não se importava, haveria sempre uma caneta, ou um lápis, para o criar e dar-lhe a importância que ele merecia.
Iria sempre pontuar, iria sempre marcar pontos, iria sempre ser o ponto mais alto… Até decidir ser… o ponto final.
M.A. 2001
O nosso protagonista, pelo contrário, dizia que pertencia a todos esses campos e a mais uma infinidade deles! Achava que era polivalente, e pronto (ponto!).
Uma das suas qualidades era o espírito de equipa: associava-se frequentemente a uma amiga, a vírgula, que era muito activa, mas menos determinada (e determinante!) do que ele. Os dois juntos atingiam algum equilíbrio, visto que acentuavam a característica dela e atenuavam a dele.
Tinha ainda outros amigos, havia mesmo uns que eram parecidíssimos com ele, de tal modo que se juntava a um deles e, das três uma, ou introduziam o discurso de alguém, ou apresentavam enumerações, ou explicavam coisas ditas anteriormente. Se trabalhasse com duas dessas almas gémeas, tornava-se um indeciso! Nunca acabava o que estava a dizer. Tinha que se adivinhar o resto, ou ficava-se na escuridão da ignorância!
Outro dos seus colegas era um bocado difícil de aturar, parecia parvo! Tão depressa ficava espantado com tudo e mais alguma coisa, como desatava a dar ordens. Era insuportável! Ainda por cima, tinha um ar arrogantíssimo, muito empertigado, teso que nem carapau!
Finalmente, havia um amigo que era muito engraçado, porque era muito despistado, nunca sabia nada... Passava a vida a fazer perguntas. Ao princípio até tinham pena dele, pois tinha um defeito na coluna: andava sempre curvado. Com o tempo ia-se percebendo que não era defeito, era feitio…
Nas lides da costura, o ponto era um leigo. Já ouvira falar duns primos afastados que nada tinham a ver com ele. Eles dedicavam-se aos bordados, ele à escrita. Eles tinham nomes compridos (um bocado pirosos!): ponto cruz (muito católico!), ponto de arraiolos (este era um bocado lento, alentejano, está visto!), e havia mesmo um que tinha um nome que não enganava ninguém – ponto pé-de-flor! O nosso amigo era simplesmente ponto (até pensavam que era filho de pai incógnito, já que não tinha nenhum apelido!).
Nos seus melhores dias, tinha muito humor o que levava as pessoas a dizer que ele era… um ponto!
Há uma coisa que falta dizer. O ponto tinha um grande desgosto: nas escolas eram raros os miúdos que gostavam dele; escreviam, escreviam e pontos… nada! Ainda por cima, havia também uns escritores (muito modernos!) que embirravam com ele…
Apesar de tudo, lá ia sobrevivendo, ponto aqui, ponto ali, lá ia ficando provado que a importância dele era…ponto assente. Se não fosse valorizado na escrita, pelo menos toda a gente tinha de reconhecer (sobretudo o Henrique Mendes!) que era imprescindível um ponto de encontro.
Embora o seu percurso fosse digno, havia, de vez em quando, pessoas que o espremiam sadicamente, tinham até inventado cremes para acabar com ele!
Não se importava, haveria sempre uma caneta, ou um lápis, para o criar e dar-lhe a importância que ele merecia.
Iria sempre pontuar, iria sempre marcar pontos, iria sempre ser o ponto mais alto… Até decidir ser… o ponto final.
M.A. 2001
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