Il est heureux sans avoir de quoi...

Carlos Sousa Santos
A sala não cabia nela de contente que ele estava. Encontrou-lhe um não sei quê de especial que procurara toda a vida em alguém e não encontrara... A paixão foi súbita e certa! Reviu todos os seus recantos, revisitou todas as brechas, alegrou-se de todas as suas decadências – ali estava ele rendido a uma beleza inumana, mas ao mesmo tempo tão corpórea e sensual. O estuque do tecto caía em lascas lânguidas nevadamente. As portas gritavam em gemidos de estertor. O soalho apresentava as mil personagens que dele escarneceram, pisando-o; que com ele rejubilaram, sentindo-o. As paredes, essas, cinzentas de humidade, transpiravam seduções de outras vidas, despudoradamente, desavergonhadamente, desrespeitosamente, como quem chama por mim...
Não estava lá, antes estivesse: conheceria qualquer coisa de vívido e vivido! Assim, na lonjura da ausência, agarro-me ao que tenho: as tábuas do meu caixão...
M.A. 1998
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