O sol derramava sobre as montanhas uma calda ardente e alaranjada, as nuvens fugiam velozmente para o horizonte, os campos cobriam-se de colorida flora… Chegara o verão.Lavou a cara, enfiou umas calças, segurando-as com um pedaço de corda e pegou no saquito de pano remendado que a avó lhe dera antes de morrer (tinha sido do avô!). Bateu a porta de madeira da sua cabana de madeira e deixou-se inundar de ouro e felicidade. Correu a soltar as cabras (ansiosas, como sempre!) e pegou no cajado que fizera com a sua faca de mato, também dada pela avó (e que também fora do avô!).
Os campos estendiam-se à sua frente, a perder de vista… Conduziu as cabras para que se dirigissem para o abundante pasto que ficava na encosta nascente do monte. As cabritas mais novas saltavam alegremente, como que adivinhando o repasto que as esperava. Uma delas, a mais pequenita tropeçava a cada passo nas próprias pernas. João Pastor, como era conhecido, pegou-lhe ao colo e afagou-a ternamente. O amor, para ele, só o conhecia pela avó, que lhe dedicara todos as horas da sua vida, e pelas companheiras de todos os dias.
A mãe era uma vaga figura adorada que nunca conhecera (morrera no seu parto!), mas que reconhecia nas histórias da avó, contadas ao luar, nas noites de verão, em que a cabana escaldava, após um dia de exposição solar. Nas escuras noites de inverno, deitavam-se cedo, o frio apertava (só na cama é que se estava bem!), e havia que poupar as velas!
O pai era uma ausência, tanto na sua vida, como nos relatos da avó. Assim, imaginava uma fabulosa personagem que corria mundo, defendendo os fracos e lutando pela justiça. Um perfeito cavaleiro andante!
Apertou um pouco mais a cabrita e beijou-lhe o focinhito, como quem está bem com o mundo e cheio de amor para dar. Parecia-lhe impossível que houvesse outra vida, com prédios e automóveis, pessoas que nem se olhavam e procuravam, só para si, um lugar melhor, uma situação mais confortável. Uma vez, no café da aldeia, a avó até vira, na televisão, gente que se matava por razões que desconheciam… Não, certamente, esse não era o seu mundo!
Finalmente, chegara ao fabuloso pasto. Sentou-se e desembrulhou um resto de pão e um naco de chouriço que tinham sobrado do dia anterior, souberam--lhe que nem ginjas! A cabrita, parecendo lembrar-se de repente que eram horas de comer, correu para a mãe, procurou uma teta e mamou desenfreadamente.
João cheirou o ar em volta, apalpou a erva húmida e estendeu-se de barriga para baixo, como se quisesse abraçar aquele chão, aquela terra que tanto amava. Falou com a avó, contou-lhe como era feliz e como adorava a liberdade que ela lhe ensinara a amar. Pediu-lhe que o acompanhasse sempre e terminou, beijando o ar, como se da avó se tratasse. Sorriu e procurou o velho bode que tanto o ajudava. Ah, sim, lá estava ele! Fez-lhe uma festa na cabeça entre os retorcidos chifres. O bode berrou, satisfeito, o que provocou uma gargalhada do nosso pastorzinho.
Fez uma sesta, durante a tarde, acordou bem disposto. O tempo passou-se numa preguiça e numa verdadeira vontade de viver aquela vida.
Sentindo o sol mais morno, apenas tépido, resolveu regressar a casa. Assobiou ao bode, chamou a cabrinha e começaram a caminhada de regresso.
O sol ia caindo, o horizonte tomou os tons de um vermelho arroxeado. Por fim, a noite lançou o seu negro manto sobre os montes.
O nosso pastorzinho, indiferente ao morrer do dia, mas confiante no seu passo, embrenhou-se mais e mais nas trevas da noite e na escuridão que sempre habitara os seus olhos…
M.A. 2001
Foto Deyvis Malta
1 comentário:
Num mundo d violência em que a palavra amor e carinho parecem não ter lugar é tão bom lermos esta prosa.Sentimos o que é amar acariciar ter respeito por tudo e por todos sem ter no pensamento nada para pedir em troca.Isto sim é amar.
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