segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Era uma vez várias vezes (19)

Desrealiza constante mente, frequente mente, compulsiva mente. Mente com quantos dentes não tem na boca (desistiu de uma prótese lindíssima!). Um hábito ou uma defesa… Para ela, a vida não é, foi… Os seus pés estão no ontem, caminhando sobre as pegadas que deixara anterior mente. Não gosta de presente, nem mesmo no dia do seu aniversário (diz ela!).
Mesmo quando é sincera mente.
Os seus dias são vividos recuados mente, nota-se isso nela a vários níveis:
no vestuário é antiga mente, nas ideias é tradicional mente. É claro que é o contrário disto tudo, porque é mentirosa, natural mente!
Amorosa mente sempre que tem namorado, ama-o violenta mente, suga-lhe a alma apaixonada mente, larga-o indiferente mente…
Não gosta de si própria mente por essa razão, não quer enfrentar a sua mente perversa e incansável mente.
O passado para ela é hoje, actualiza a infância, porque aí se sentia feliz mente! Tudo o que dela faz parte é duvidoso, é falso, é enganoso, pois ela ludibriosa mente.
Quando conta histórias, todos a ouvem embevecidamente (desta vez, sem espaço, visto o sujeito não ser ela!), conta-as, sem escrúpulos, mentindo e muito consciente mente. E mente sem ninguém lhe levar a mal, já que encantadora mente conta histórias de encantar…
É essa a sua razão de viver: translada o passado inventado fiel e rigorosa mente! Por isso, rejeita o presente e também, muitas vezes, o indicativo (acções reais não são com ela!). Prefere pretéritos, sejam eles perfeitos, imperfeitos ou mais-que-perfeitos. Para ela, o presente e o futuro é que são invariável mente imperfeitos! O conjuntivo agrada-lhe, (o desejo não lhe é estranho!), o condicional é útil (mesmo condicional mente!)…
A nossa contadora de histórias tem a noção de quanto é importante o seu papel, sabe que o «sonho comanda a vida», sabe que a vida não é nenhum sonho (talvez mais um pesadelo!)…
Entusiasmada mente enquanto conta, conta enquanto mente. Prefere o verbo, rejeita o sufixo (por isso mente e não –mente!). E assim, mente sempre, em todas as ocasiões, em todas as situações, em todas as disposições: aflita mente, nervosa mente, desesperada mente, enamorada mente, feliz mente… incontrolavelmente!
Se alguém lhe pergunta quando é que ela vai deixar de mentir, ela responde que… breve mente…

M.A. 2000

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