Era e não era um cowboy. Como o nome indica, ele era metade vaca, metade rapaz, o que, como devem calcular, lhe trazia alguns problemas…O seu tempo dividia-se entre os espectáculos que fazia com a sua boy’s band e as gravações da quarta edição de um concurso onde ele entrava, fazendo o papel de bisneta da Cornélia.
Como se vê, o rapaz (?!) fazia trabalhos puramente intelectuais. Como rapaz, fazia muita musculação e cantava pouco; como vaca, também fazia figuras tristes…
Aos fins de semana, ia para a quinta de um amigo, que também era cowboy, e fartavam-se de pastar. Como ele e o amigo não se davam muito bem, andavam sempre às marradas um ao outro. Já se conheciam desde a escola, e ambos tinham ouvido grandes sermões dos professores, dizendo que tudo o que eles escreviam nos testes era só palha. Apesar destes raspanetes, eles lá se iam safando porque tinham uma grande vaca nos exames.
Várias vezes tinham longas discussões acerca da sua particular condição. Antigamente, as pessoas da sua espécie tinham muita saída no cinema e sempre andavam à pancada com índios (que, coitados, não lhes tinham feito mal nenhum!). Agora, o cinema estava mais virado para barcos afundados, terramotos, invasões de animais de todo o género e feitio, e até estavam a ter muita saída bichos que saíam de dentro das pessoas e deitavam imensas babas verdes (uma porcaria que só visto!). Havia também filmes com senhores muito desenvolvidos, mas um bocado deformados e oleosos que deviam usar as epilady a toda a hora. Filmes de cowboys já havia poucos.
Houve um dia em que a conversa se centrou na vida amorosa. O nosso protagonista achava que, por vezes, avacalhava um bocado as suas relações, o que se tornava desagradável para as pequenas. O amigo tinha mais tendência para bois, mas como dizia que havia um rapaz dentro dele, os parceiros pensavam que ele estava grávida e abandonavam-no, não querendo a responsabilidade de filhos para criar. Como vêem, a vida não era fácil, pois, ainda por cima, como ambos os amigos exibiam grandes pares de cornos, eles próprios não sabiam se era apenas um dom da Natureza, ou se eram invariavelmente enganados pelos seus parceiros.
Outra coisa que se tornou uma obsessão constante foi a vacinação, pois eles não só estavam sujeitos ao vírus H.I.V., como também à B.S.E., portanto, era muita vacina, muito controle (embora não soubessem onde os meter!). Conheciam imensas vacas que eram louquíssimas, eram mesmo umas destrambelhadas, umas malucas que só visto! Não queriam ficar assim…
Toda esta instabilidade emocional não lhes fazia nada bem, passavam a vida divididos entre a Playboy e o T.V. Rural.
Aconteceu que, um dia, o nosso cowboy resolveu ir a Cascais conhecer a Marina (sem mota!), e, estando ele a admirar as suas belas reentrâncias e saliências, a escutar o seu murmúrio doce e pausado, viu, ao longe, sob o belíssimo pôr-do-sol digno das edições Paulistas, uma miúda espectacular que vinha nadando em sua direcção…Seria a Cláudia Shiffer?! Seria o Eládio Clímaco?! Seria o padre Frederico?!» Felizmente não era nenhum deles: primeiro, porque tinha medo que o David Copperfield o transformasse em centauro; segundo, porque não gostava de jogos sem fronteiras; terceiro, porque ele ainda tinha cara de miúdo…
Foi preciso esfregar os olhos várias vezes para acreditar no que via: era uma sereia, uma sereia a sério, com a posta do rabo e tudo!
A atracção foi imediata e recíproca. Juraram ali mesmo amor eterno. Ele mudou-se para uma vivenda na Quinta da Marinha com uma grande banheira com jacuzzi na sala. Em casa, nunca lhes faltava o leite e os seus derivados. Ela, às vezes, escamava-se um bocado, mas não era nada que não passasse com um carinhoso múúú… Gastava imenso dinheiro em tops, cai-cais e soutiens, mas poupava no resto… Os vizinhos achavam-nos «o máximo!» por eles não serem carne, nem peixe. Com o tempo, e por contágio, estavam a ficar um bocado tios…
Finalmente, ele pediu-a em casamento.
Ela respondeu:
-Então, vá…
M.A. 2000
Sem comentários:
Enviar um comentário